sexta-feira, 17 de maio de 2013

Inimigo público número um: Sujeito indeterminado


O Brasil é um gigante adormecido. País do futuro. A potência do novo milênio. Clichê, clichê, clichê. O Brasil será tudo isso, só e somente só, quando eliminarmos a maior praga desse país: o uso indiscriminado de frases com sujeito indeterminado, seja na teoria gramatical ou na prática. Seguem alguns exemplos clássicos.

É preciso investir na educação! País de analfabetos...

Alguém tem que fazer alguma coisa! Isso é um absurdo!

Vai atrasar e vai custar o dobro do que estão dizendo. Quer apostar quanto?

Tem que melhorar essa gestão, tá todo mundo feito barata tonta.

Aliás, esse “tem que...” é o meu preferido. Inúmeras reuniões de trabalho são conduzidas na base do “tem que”. “Tem que rever esses valores e refazer essa planilha”. No final das contas, sai todo mundo satisfeito e confiante de que o sujeito indeterminado fará as devidas correções. Na reunião seguinte, está todo mundo fulo da vida. Muda só o tempo verbal. “Tinha que ter sido feita semana passada, agora já era!”

O mais engraçado – ou mais triste nesse caso – é que ninguém parece perceber que deixar para “alguém” – ser indeterminado – fazer, é o mesmo que deixar para ninguém.

Poucos anos atrás troquei a iniciativa privada pelo serviço público. No começo me sentia como agente infiltrado em território inimigo. Aos poucos percebi que há pessoas determinadas a resolver problemas e há pessoas acomodadas, como em todo lugar, inclusive na iniciativa privada. Porém, ainda me surpreende ouvir pessoas reclamarem do atendimento de um Detran da vida enquanto o telefone berra ao lado, solenemente ignorado. Ou quando falam que “o Governo” – de forma genérica, e não o partido que está no poder – está perdido, não sabe o que quer. Nós somos o governo, o serviço público!

Dia desses ouvi de Marie, antes de sair de casa: “Tem que ligar para o cartão de crédito, para perguntar do seguro”. Sobressaltado perguntei: “Quem tem que ligar? Eu tenho que ligar? Você vai ligar?” Pelo menos em casa, esse sujeitinho, indeterminado que só ele, não vai entrar.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O desespero e a terapia com Galvão Bueno



Estou lendo o livro Quando Nietzsche chorou. O autor imagina uma relação fictícia entre os personagens reais Josef Breuer e Friedrich Nietzsche. Breuer foi um eminente médico, contemporâneo de Freud. E Nietzsche foi Nietzsche. Um filósofo incompreendido por muitos, mais por culpa dele do que nossa. A certa altura do livro Breuer pede a Nietzsche que o ajude a curar seu próprio desespero, numa tentativa de posteriormente inverter a situação e tratar sub-repticiamente do problema psicológico do filósofo alemão. Em meio a intrincadas discussões sobre temas existenciais, surge a dúvida, impertinente como um pop-up: o que é mesmo o desespero?

Sempre tendi a pensar que nossa mente pertence exclusivamente a nós mesmos. E que, livres de doenças que possam ser explicadas física ou quimicamente, podemos controlá-la como um hábil domador de pensamentos. Pelo pouco que consegui arrancar do meu irmão psicólogo – que insiste em falar em códigos – Freud e todo o conceito de terapia apontam para a existência de um inconsciente. Esta “entidade” coexiste com o nosso consciente e vez por outra dá o ar da graça. Essa sensação de não estarmos totalmente no controle do nosso minúsculo barco à deriva é aterradora.

Semana passada senti uma forte dor no ombro esquerdo durante uma série de exercícios físicos. Em casa, depois que o corpo esfriou, fiquei completamente travado. Não consegui dormir, pois toda posição era incômoda. No escuro, com Marie dormindo pesadamente ao lado, fiquei entregue aos meus pensamentos por horas. Até aí tudo bem. Porém, o sono que costuma vir após tantos carneirinhos perdeu o bonde e comecei a imaginar como seria ficar daquela forma para sempre. Lembrei-me do livro de Marcelo Rubens Paiva (Feliz ano velho) e do desespero. Pensei em hospitais e UTI’s. Um pensamento foi se acumulando a outro e minha mente começou a não mais obedecer à ordem de virar o disco. Forcei realmente a barra e permaneci imóvel na cama por um bom tempo, sem querer acreditar que havia algo em mim que eu não pudesse controlar. Somente após levantar no meio da madrugada e assistir a uma reprise de Bem Amigos, consegui trocar um pouco dos pensamentos soturnos por um pouco de raiva do Galvão Bueno.

O medo é outra sensação que leva ao desespero ou descontrole emocional. Não aquele medo de falar em público ou da receita federal. Estou falando do medo irracional, sobrenatural, que gela a espinha e contorce o estômago. Típico medo da infância, potencializado pelo simples fato de ser inexplicável. Há muito tempo não sentia esse tipo de medo. Porém, semanas atrás fui nadar na academia, num dia em que ela estava praticamente vazia. A longa piscina semi-olímpica estava à minha inteira disposição. Caí na água e dei umas braçadas para aquecer e logo na segunda volta senti a água ficar gelada. Cada vez que dava as costas à margem oposta tinha a sensação de que alguém estava dentro da água e que iria segurar minha perna. A cada respiração sentia medo de ver um corpo boiando ao meu lado ou coisas desse tipo. Ainda nadei quinhentos metros antes de admitir que o medo havia vencido.

O meu lado racional continua prevalecendo (pai, mãe, podem ficar tranquilos!), mas episódios como esses serviram para me alertar quanto à fragilidade de nosso consciente. O inconsciente é uma fera contida, cuja frágil jaula não oferece nem de longe a devida segurança.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

50%


Foto retirada do site http://blog.tuttimami.com.br/
Cinquenta por cento de chance. Tão simples quanto acertar se uma moeda lançada para cima dará cara ou coroa. O espermatozoide que carrega o cromossomo-chave – que é o “X” ou o “Y” da questão – não define apenas o sexo do bebê. Ele enseja todo um estilo de vida, desde a posição em que urinamos até a forma como expressamos nossos sentimentos.

Eu e Marie ainda não sabemos se o bebê que esperamos é uma menina ou um menino. Com 3 meses completos de gravidez o ultrassom realizado não permitiu identificar. Instada pelos pais ansiosos a chutar um sexo, a médica disse parecer ser uma menina. Logo em seguida pediu que desconsiderássemos, dado o alto grau de incerteza. Por outro lado, o enjoo persistente aliado a crenças populares, e corroborado pelo instinto maternal, parece apontar para um menino.

A escolha do nome também parece querer participar da definição do sexo. Eu sempre quis um nome que fosse simples, leve e que não gerasse dúvidas quanto à escrita. Depois de descartarmos Venceslau e Doroteia, entramos facilmente em consenso quanto ao nome de menina: Cecília. Quanto ao nome de menino, a peleja continua. Nesse sentido, uma menina seria uma apaziguadora do lar.

Não sei se daqui a alguns anos estarei tranquilizando minha filha, enquanto ela passa por seus ciclos lunares de mudanças de humor, ou se estarei compartilhando com meu filho encardidas pérolas de sabedoria quanto à eterna incompreensibilidade do universo feminino. Enquanto a escuridão persiste, Marie elabora intrincadas listas de enxoval com opções para ambos os sexos. Eu continuo sonhando em poder compartilhar paixões como viagens e música. Ambas universais e unissex.

Hoje Marie coletou sangue para um teste de sexagem.  Em 7 dias saberemos, com 99% de certeza, se teremos um menino ou uma menina. Seja como for, continuamos a ter 50% de chance para cada lado.
 
Veja também: Embaixo do MASP

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Jeunet e Caro


Todos os anos somos inundados de filmes americanos, alguns bons, muitos ruins. Mas cada vez mais produções de outros países ou de múltiplas nacionalidades têm conseguido amealhar espectadores e elogios. Em minha saga de aprendizado da língua francesa tenho assistido a filmes francófonos recentemente. Entre eles descobri três filmes da dupla de diretores Jeunet e Caro: Delicatessen, La cité des enfants perdus, e o mais famoso, Le fabuleux destin d’Amélie Poulain.


As três produções carregam um quê de sonho, típico da infância, em que memórias reais e imaginárias parecem se confundir e a aparente falta de sentido de certos acontecimentos faz todo o sentido do mundo naquele momento. Em Delicatessen, um prédio decrépito gerenciado por um açougueiro sanguinário (desculpe a redundância, mas é isso mesmo) é ao mesmo tempo personagem e cenário. Nele, moradores singulares desfilam suas manias, que fazem com que de perto ninguém seja normal. Todos passam por necessidades materiais e aguardam ansiosos pelo novo zelador que será esquartejado e devorado entre vizinhos canibais. Enquanto isso, seres que vivem no subterrâneo parecem ser os últimos guardiões da ordem outrora reinante. Em uma cena interessante, o movimento ritmado das molas do colchão durante um furtivo encontro amoroso em um dos apartamentos faz todos os moradores do prédio entrarem na dança. Os detalhes do comportamento da filha do açougueiro ao tentar dispensar os seus óculos de grossas lentes no encontro com o zelador são hilários.


 Em La cité des enfants perdus crianças vivem pelas ruas, perseguidas por uma gangue de ciborgues de audição delicada que as raptam para uma família estranha formada por um cientista maluco, uma anã, um cérebro num aquário e seis irmãos gêmeos hiperativos. O cientista se conecta com a mente das crianças a fim de lhes roubar os sonhos, mas tudo que consegue são frustrantes pesadelos. A mocinha do filme é uma menininha de personalidade forte, ajudada por um brutamonte de coração mole. O filme se destaca pela estética de desenho animado gótico, lembrando um filme de Tim Burton, mas sem Johnny Depp.


O melhor dos três é mesmo o Le fabuleux destin d’Amélie Poulain que fez sucesso mundial no começo dos anos 2000. Ao contrário dos dois primeiros filmes, que se passam em lugares e épocas indeterminados, ele percorre as familiares ruas da Paris atual. Amélie Poulain é uma estranha parisiense suburbana que passa a ver sentido na sua vida ao ajudar secretamente as outras pessoas. Ela dá uma de cupido, reescreve cartas de amor para uma viúva solitária e faz um anão de jardim viajar o mundo para tirar seu pai de casa. Sempre vivendo a vida dos outros, acaba esquecendo de si mesma. Somente ao conhecer um rapaz tão estranho quanto ela mesma e vencer a sua timidez, ela encontra a felicidade.

No entanto, a grande joia do filme é a maneira casual de descrever os personagens por meio de suas manias e esquisitices. Por exemplo: Fernando gosta do barulho de cubos de gelo trincando ao preencher um copo com coca-cola quente e de tirar fotos de lugares vazios. Fernando não gosta de deixar o garfo virado para baixo arranhando o prato e de preencher formulários.

Não deixe de assistir esses filmes com a mente serena e aberta e, caso sinta vontade, deixe nos comentários desse post as suas próprias manias. Aquelas que você acha que melhor te definem.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Adnet na Globo


O Brasil tem ótimos comediantes, das mais diferentes vertentes. Porém, poucos alcançam o grande público – o sempre carente de boas risadas “povo”. Nos últimos anos os únicos programas que eu assistia com certa regularidade nos canais de TV abertos eram os programas de comédia da MTV. Marcelo Adnet e sua turma estavam no auge da criatividade e do entrosamento quando, de repente, o sonho acabou. Adnet e Tatá Werneck foram capturados pela Rede Globo, Dani Calabresa está dando uma oxigenada no elenco do CQC e Paulinho Serra e Bento Ribeiro agonizam na esvaziada MTV.

Marcelo Adnet tem talento de sobra. Ele tem um tipo de humor inteligente que não precisa descambar para as típicas piadas ofensivas. Um tempo atrás fiz um curso que ensinava técnicas para falar em público e o professor nos pediu então para contarmos uma piada qualquer. Sugeriu apenas que evitássemos piadas xenófobas, racistas, religiosas, imorais ou preconceituosas em geral, que teriam o efeito de afastar o público em vez de aproximá-lo. Diante da dificuldade de encontrar uma piada apropriada foi que me dei conta de como é complicado fazer um humor sutil e inteligente. Adnet não consegue evitá-las completamente, mas o efeito de suas sacadas perspicazes costuma suplantar eventuais sentimentos de ofensa.

Nos últimos meses de MTV ele vinha mudando um pouco o rumo de sua carreira, apresentando um programa de notícias e entrevistas e outro baseado em viagens. Neste último ele mostrou como sair do óbvio em um formato já batido, contando a história da Bósnia e utilizando o seu conhecimento de papiamento no Caribe. Eis que chegou o temido dia em que a Globo abriu a mala cheia de dinheiro e o levou para a emissora que é tão politicamente correta que chega a irritar. Na Globo ninguém diz Facebook ou Twitter, eles dizem “redes sociais”. Não sou um desses Che-Guevaristas que apedrejam a Globo em todas as suas ações, mas especificamente em relação ao humor, eles têm o poder de pasteurizar todas as piadas. A diferença é que em vez de eliminar os micro-organismos eles retiram toda a graça.

Enquanto um iluminado da Rede Globo não retirar as correntes que Marcelo Adnet está arrastando, a maioria dos brasileiros, que não o conheciam antes, o verá como um comediante blasé – o sorriso de plástico do Dentista Mascarado. Justiça seja feita, o texto é fraco e os atores são bons. Mas ao instalar um filtro no Adnet, a Globo retirou a característica mais engraçada dele, que é parecer com aquele nosso amigo engraçado que existe de verdade.