Segunda-feira, Julho 06, 2009

Pit-stop

As pessoas passam a toda velocidade, na minha frente, dos lados, atrás. Sem leis de trânsito somos novamente selvagens. Por sorte estamos num shopping e todos a pé, e naquela baderna organizada, desvio de bandejas e pilares até me aproximar de uma grande fila. Basta perder dois ou três segundos olhando para as coloridas placas luminosas com anúncios de promoções antes de entrar na fila para perceber que você já perdeu umas seis posições. Mocinhas uniformizadas abordam rapidamente cada um dos enfileirados, distribuindo cardápios como se fossem máscaras de gás numa guerra química.. Todos falam ao mesmo tempo e há um insistente bipe que alerta os clientes que, uma vez já tendo enfrentado a fila, esperam de braços cruzados pela sua vez de buscar a bandeja. Lembro do INSS. O clima começa a ficar tenso, pois a fila anda rapidamente, as mocinhas querem saber o meu pedido, e eu nem sequer consegui decifrar a página com as refeições. Apesar de já saber o que vou pedir, acho conveniente e necessário apontar, como uma criança o faria, o desenho do meu pedido, assim não resta dúvida e eu não fico dependente da necessidade da atendente conhecer leitura labial. O grande problema a ser enfrentado, contudo, é o número de especificações a fazer, e tudo isso num tempo mínimo. É como se estivéssemos parando o carro para colocar combustível, e enquanto você pensa se quer gasolina ou álcool, a equipe da Ferrari quer que você saia dali em no máximo seis segundos, e satisfeito. Faltam só duas pessoas e eu começo a repassar o pedido na minha cabeça. Chega minha vez:

- Pois não senhor? – sem olhar para mim.

- Duas promoções número 1, um bem passado e o outro normal, trocando a batata frita pelo purê nos dois, o refrigerante é coca pra um e fanta pro outro, um dos pratos sem farofa, molho barbecue separado nos dois e molho na salada. – consegui.

- Petit gateau?

- Não, obrigado – entrego o cartão e leio um papel colado em frente ao caixa virado para a atendente que diz “metas: tempo por cliente = 15 segundos, 15 sobremesas por dia” – você anotou aí que um deles é sem farofa?

- Sim senhor, crédito ou débito?

- Dé...- ela me passa a máquina do cartão para eu digitar a senha – bito. O molho é separado tá? – devolvo a máquina após digitar sem erros.

- Ok senhor, você se importa de aguardar aqui ao lado? – deixa a máquina de lado para cuspir a via do cliente – próximo!

Enquanto o próximo cliente negava o petit gateau, a atendente me entregava meu cupom fiscal, com um número circulado para que eu fosse me juntar aos de braços cruzados que olhavam para o painel eletrônico que bipava a cada cinco segundos. Em menos de cinco minutos eu saía de lá carregando duas bandejas com todas as especificações corretas.

Antes de reclamarmos quanto à qualidade de vida que temos, devemos nos lembrar que fomos nós que pedimos por isto. Só espero que a fast-food não se transforme em fast-life (leia-se short-life).

Quarta-feira, Junho 24, 2009

A curva da vida / Reflexões de esteira


Na engenharia tudo se resume a equacionar os problemas e transformar os dados em gráficos. Nem sempre isso é possível, mas quando não resolvemos o problema de forma analítica, apelamos para ensaios exaustivos que hão de nos fornecer uma lógica para determinado fenômeno físico. Aí é só fazer a correspondência de “x” com “y” e um abraço.

Na vida, nascemos, crescemos, procriamos (atualmente essa parte não é mais obrigatória, pelo menos para os não-mórmons) e morremos. Começamos pequeninos e indefesos, nos desenvolvemos, criando músculos e melhorando os nossos recordes pessoais, e... e então atinge-se o ponto de inflexão da curva. É muito difícil identificar esse ponto de máximo, quando a derivada da função se iguala a zero, e aquela curva quadrática, barrigudinha que é uma beleza, aponta pro céu e começa a descer. Talvez por isso o formato dela se assemelhe ao inverso daqueles sorrisos de “smileys”, com a concavidade para baixo ou, como diria um antigo professor meu, com o “jeitão” dela para baixo.

Se aos dezessete você pensa que, se começar a treinar no dia seguinte, você será capaz de correr uma maratona sem maiores problemas em aproximadamente um ano, você provavelmente está certo. A tendência é sempre melhorar, quanto mais exercício melhor. Mas quando aos vinte e nove e pensa em aumentar a sua velocidade na esteira em um quilômetro a mais por hora, prepare-se para sofrer meu amigo. A esteira não perdoa, porque ela não pára. A não ser que você aperte o botão vermelho da vergonha. Existe ainda, nos novos modelos de esteiras, um item extra para torturar os seus desafiantes, que é a inclinação. Quatro por cento é o suficiente para sentir o bafo do diabo a te cutucar com o tridente.

Dia desses fiz as contas de quanto tinha que aumentar minha velocidade para baixar em um minuto o meu tempo de corrida por quilômetro. Fica aqui a dica, não façam isso em casa. Pelo menos não de uma só vez. Ao implementar o meu sonhado novo patamar de velocidade na máquina, não se passaram sequer trinta segundos para o joelho apitar. Eu estava lá, no ponto de inflexão da minha curva da vida pessoal. Senti como se estivesse subindo numa montanha russa e pudesse ver, lá de cima, o parque inteiro. Um momento de reflexão da vida, que serve para nos lembrar que não estamos aqui para sempre e que todo segundo é valioso.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Overheard in Brasília II

"O vermelho poderia não ser tinta no seu cabelo"

cara atento: olha o carro, cuidado!
ruiva lenta saltando de lado: ui!
cara atento: você podia ter sido atropelada, era uma Hilux.
ruiva lenta: pelo menos era um carrão.

overheard by "voltando pro trabalho"

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Mellon Collie and the Infinite Sadness

Ao explicar ao diretor de arte do CD "Mellon Collie and the Infinite Sadness, a bíblia do rock alternativo dos anos 90, o que ele queria para o encarte, Billy Corgan definiu o álbum como um "rock psicodélico tocado por uma banda de heavy metal dos anos 1920". Quer resumo mais adequado para as músicas do MCIS?
Do lirismo transcendental ao rock pesado quase bestial, o CD duplo de 1995 até hoje está entre os meus favoritos.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Matemática financeira

As obras de engenharia são lugares interessantes, que guardam histórias mis, mas poucas vezes contadas. Suponhamos que isso se deve ao pequeno teor de humanismo vigente no meio, traduzido em um pragmatismo matemático e na parca instrução do contingente laboral. Mas ao mesmo tempo, desse antro por vezes demasiado masculino, brotam bonitos laços de amizade e lições.

Na construção de um edifício, a empresa responsável, que buscava aperfeiçoar o seu sistema de qualidade e concomitantemente valorizar seus funcionários, decidiu implementar aulas de português e matemática para os interessados. Um jovem engenheiro foi designado para apresentar a rainha das ciências e senhora dos números àqueles cansados mas persistentes trabalhadores, que se dispunham a ficar uma hora além do horário normal. Logo nos primeiros encontros ficou claro o quanto aquelas aulas, que além das contas básicas e um pouco de geometria traziam pinceladas de atualidades e curiosidades, despertavam o genuíno interesse dos que poucas vezes haviam tido a oportunidade de aprender. Para o jovem engenheiro, todo aquele papo eleitoral que permeia a mídia de quatro em quatro anos, acerca do quão importante é levar educação ao povo começou a fazer mais sentido, e também aumentou a sua revolta ao sentir o quanto isso estava longe de acontecer.

O aluno mais assíduo e também o menos favorecido pelo nosso sistema educacional era um magro ajudante, de olhos grandes e pai de quatro filhos. V. prestava atenção a todos os detalhes, mas durante algumas aulas seu avião mental planava longe das somas de frutíferas que preenchiam as lições.

- Você tem duas laranjas V. Você vai ao mercado e compra mais três laranjas. Quantas você tem agora?

Silêncio.

A matemática básica adora laranjas. Acredito que quase todos aprendem o conceito de frações imaginando uma laranjada. No entanto, no mundo da obra isso não funciona do mesmo jeito. Cada ser com suas idiossincrasias.

- Duas laranjas, depois que você compra outras três...quantas são agora?

Um grilo assovia ao longe. A classe se desespera e tenta intervir. O jovem engenheiro pede calma. Há de brotar, pois ele está jogando as sementes. Teimoso:

- Ok, imagine que essas britas são laranjas. Aqui estão duas. Se você comprar mais três – e coloca-as na mesa – quantas você tem? – sorri triunfante.

Clima constrangedor. Uma alma caridosa no fundo da sala se aproxima e sussurra algo ao surrado professor mergulhado no surrealismo fantástico.

- Ok, vamos tentar. V., você tem dois reais e recebe mais três. Quantos você tem agora?

- Cinco – diz V. sem pestanejar.

- Se você agora recebe mais dez reais?

- Fico com quinze – manda outra otário.

- E se comprar um lanche de três reais?

- Sobram doze – sorriso aberto.

Pronto, missão cumprida, ou comprida, como queira. Isso sim é que era matemática financeira.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Overheard in Brasília

Corintiano fanfarrão: Dia desses tô passando de carro e tinha um cara vendendo camisa do São Paulo no sinal, 3 por 10 reais! Huahuahua.

São-paulino pó-de-arroz: a do Curíntia eu não queria nem de graça, não serve nem pra pano de chão. Você quer comparar o número de títulos do São Paulo com o do Curíntia?

Corintiano fanfarrão: Nós temos um título que vocês não têm!

São-paulino pó-de-arroz: Qual??

Corintiano fanfarrão: O de campeão da segundona! Invicto! Huahuahua

overheard by flamenguista estupefato

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Wolverine - a concepção

Um lampejo de criatividade é o bastante para conceber uma obra de arte. Pelo menos tem gente que pensa assim. Ou pelo menos eu acho que tem gente que pensa assim. Vez por outra um desses roteiristas de filme tem uma ideia brilhante (na verdade, nem precisa ser tão brilhante, pode ser assim um fósforo aceso) para uma cena ou um determinado diálogo e pensa: “Puxa, acabei de vislumbrar o Olimpo das seqüências de ação, agora só resta inventar o resto do filme para se adequar a essa cena que eu quero fazer...” Pronto, está preparado o caminho para mais uma bomba do mercado cinematográfico.

Sim, eu fui assistir Wolverine. O personagem é bacana, o ator que o interpreta “fits the character”, e a sacada de centrar um filme inteiro naquele Zé do Caixão mutante tinha tudo para dar certo. Mas como nem tudo são flores, segue a conversa travada entre os roteiristas do filme durante o “brainstorm” que eles tiveram na sala de reuniões.

(Roteirista Nerd 1): Sabe o que ia ficar massa? O Wolverine sendo perseguido numa moto, estilo retrô, de jaqueta de couro e tal, com um helicóptero atrás mandando bala na tundra canadense!


(Roteirista Nerd 2): Uau, puta ideia véio. Agora basta saber como fazer pra ele arranjar uma dessas motos depois de ter sofrido uma aplicação de "adamantium" no esqueleto e ter saído correndo nú da estação ultra-secreta do governo que fica no campo.

(Roteirista Nerd 1): Já sei, já sei! Ele encontra uma fazenda onde mora um casal de tiozinhos que tinha um filho que foi morto, que se perdeu ou que viajou, sei lá. Enfim, mas eles dão janta, um lugar pra dormir, a jaqueta, a moto e ainda levam dois balaços no final, pra chocar mesmo brother!

(Roteirista Nerd 2): Demais véio, demais! Agora me ajuda com essa aqui ó... Tipo, a gente tem que explicar de onde surgiu o nome do cara, tá ligado? Wolverine... Afinal, é “X-men – Origins”. To bolando uma idéia aqui baseada numa lenda com umas paradas indígenas no meio e um lance lupino, sacou?

(Roteirista Nerd 1): Lupino...pode crer. Isso aí rola!

(Roteirista Nerd 2): Então, o lance ficava mais ou menos assim. Na hora que a mina sexy, que bastou tocar no cara faz o cara fazer tudo o que ela quer, estiver dando uns amassos com o barba negra na cabana perdida no meio da Canadá, do nada ela vai e conta a parada da lenda lupina. A gente enxerta uns bagulhos lunares também, pois sabe que lobo e lua né...? Hum? Sacou?

(Roteirista Nerd 1): Só... Pronto mermão, com essas duas cenas a gente tem um sucesso! E o resto, como a gente faz?

(Roteirista Nerd 2): O resto a gente não complica brother, que isso aqui não é filme cabeça, esses bagulhos de arte e tals. O lance aqui é direto, os caras querem ver os manos póu, e as minas pá! Então a gente faz um esquema de trauma, tipo algo que justifique a fúria dele. Tem que ter um cara do governo, tipo militar, que é mau bagarai, daqueles que até o cuspe é ácido, mas que também tem um trauma ou algo que justifique sua aparente lunacidade...e... brother, sacou aí? Lunacidade? Tudo se encaixa né?? Os caras antigamente achavam que a lua que deixava os malucos doidos e tal...

(Roteirista Nerd 1): Concentra na história pô...

(Roteirista Nerd 2): É mermo, foi mal. Então, aí também pode ter um lance que é meio amizade com o dente de sabre, mas que ele vai e descamba pro mau, mas no final eles se ajudam e tal, daqueles pra fazer chorar mermo sabe? Ah...e pro filme não ficar tenso demais né, pensei em falar com o pessoal do núcleo cômico pra dar uma caprichada. Algo no estilo Vovózona tá ligado? Quem sabe o Eddie Murphy não topa fazer uma pontinha?

(Roteirista Nerd 1): É, essas partes complementares a gente deixa pro estagiário brother. O nosso negócio aqui é criatividade. Inspiração. O mote do filme que é a moto e a lenda pro nome Wolverine fomos nós que concebemos. Arte pura! O resto é baba!


Depois disso foi só convencer o produtor do filme de que valia a pena gastar milhões nessa história e esperar que gente como eu fosse assisti-la. Parece que eles estavam certos!