quarta-feira, 10 de junho de 2015

Viagem França 2015 - Parte 2

Entre 01 e 15 de maio de 2015, eu, Marie e Daniel fizemos uma viagem por Paris, onde visitamos meu irmão Flávio, e pelo sul da França, na região da Provença.

05/05/2015

Nada como um dia após o outro. Depois da febre e do acidente do dedo de Daniel, o sol apareceu, ainda que intercalado por céus turvados e rajadas de ventos enregelantes. Trocamos a programação inicial de parques e bairros mais afastados (Belleville, Bercy, Giverny e Parc de la Villette ficaram para uma próxima viagem) pelas atrações mais centrais, a partir das quais poderíamos retornar rapidamente para casa em caso de febre ou de chuva. Pegamos um ônibus para a Torre Eiffel, dessa vez sem nosso fiel escudeiro Flávio, que tinha compromissos na universidade. Ao descermos no Champ de Mars, o céu estava fechado e fazia muito frio. Mal começamos a caminhar e a luz do sol ultrapassou as nuvens iluminando o ambiente como a um palco de teatro. Os inúmeros chineses que caminhavam juntos aplaudiram o iluminador divino daquela cena. O sol e as nuvens carregadas, o calor e o frio, se revezavam em sua luta eterna. Nós já quase subíamos em direção ao Trocadero quando Daniel acordou de seu casulo (carrinho), se animou com a paisagem e desfilou seu equilíbrio tênue na frente do Rio Sena.

Marie, Daniel e seu dedo "dodói"
Como havia previsão de chuva no meio do dia, a ideia era nos abrigarmos no Aquário de Paris, ao lado do Trocadero. Apesar de o sol haver firmado, mantivemos o plano para ver se Daniel curtiria e aproveitamos para almoçar por lá. Foi uma surpresa vê-lo estupefato, gritando com as mãos para o alto: “peixe, peixe”! Ele ficava impressionado a cada novo paredão de vidro e enfiava a cara para ver de perto peixes coloridos, águas-vivas ou tubarões. Gostou especialmente de nós o termos colocado numa escotilha de vidro que se projeta para dentro do tanque e de meter a mão na água em um aquário aberto, rasinho, que estimula as crianças a tocarem nos peixes. Depois de ele cansar e realizarmos o pit-stop de fralda, pegamos um ônibus (guiados via telefone por Flávio) até o Hotel de Ville, a fim de explorar o bairro do Marais.

Daniel no aquário
Andamos primeiro pela Rue Sante-Croix de la Bretonnerie, cheia de lojas modernosas e em seguida entramos na Rue des Rosiers, talvez a mais legal do bairro. Ela tem um punhado de lojas bacanas, crepes e comidas judaicas (falafel). Marie gostou do restaurante Chez Marianne e eu gostei da fachada de uma pâtisserie judaica, que passa de pai pra filho desde 1946. Em uma esquina inocente há uma placa marcando o lugar de um atentado antissemita, ocorrido em 1982, em que foram mortas 6 pessoas e feridas outras 22. Para nós brasileiros é difícil conceber essa proximidade da Europa com o terrorismo, com o xenofobismo, e com outras aberrações do nosso dito mundo moderno.

A próxima parada foi a Place des Vosges, que já conhecíamos, mas por isso mesmo fazíamos questão de lá voltar. Daniel acordou da sua soneca bem a tempo de brincar. Além das fontes e dos gramados, lá tem escorrego, balanço, gangorra e outros brinquedos com design futurista. Ele fez uns amiguinhos por meio da comunicação universal das crianças e logo estava se esbaldando.

Ao sairmos de lá, jantamos no Ma Bourgogne, bem na esquina da praça. Acertei em cheio no prato: um steak tartare. Depois que aprendi que carne crua, se bem temperada, também pode ser gostosa, tenho arriscado sempre nessa especialidade francesa. Quando estávamos terminando, Daniel fez seu número dois ali mesmo. No banheiro não havia trocador, nem espaço. O jeito foi improvisar em um banco da Place des Vosges: a troca de fralda mais veloz do oeste para escapar do frio. Mais uma dica de Flávio e mais um ônibus depois, estávamos em frente aos Jardins de Luxemburgo. Não resistimos e ainda demos uma volta por lá, onde encontrei um busto do meu mais novo amigo Delacroix e revi a bonita Fontaine de Médicis. Agora sim, a viagem tinha começado.

De novo! (Place de Vosges)

Delacroix nos Jardins de Luxemburgo

06/05/2015

Acordamos um pouco mais tarde e caminhamos pela movimentada Boulevard St. Germain. Lá, fizemos uma parada estratégica para compras de perfume e maquiagem, onde aproveitei para treinar meu francês de ogro. Depois rumamos para o bairro Quartier Latin. Empurramos o carrinho de Daniel ladeira acima até o Panthéon, lotado de andaimes devido à reforma. Apesar da proximidade, o bairro já é bem diferente do St. Germain, com a faixa etária reduzida pelos inúmeros estudantes que zanzam pra lá e pra cá. Daniel acordou faminto do seu sono matinal e paramos em um restaurante grego, despretensioso, na Rue Descartes. O almoço se estendeu por duas horas ou mais, com troca de fralda, boa comida, muito pão e espera para chuva passar. Flávio nos encontrou lá, vindo da faculdade ali perto. Com ele descemos a famosa Rue Mouffetard, onde ele havia morado por uns dias no começo de sua estadia em Paris, em um albergue. A rua tem uma vibe legal, com vários bares, lojas e arte de rua. Fizemos um pit-stop na livraria L’arbre du voyageur, que tem uma seleção muito boa. Com saudades de livros sobre viagens, saí de lá com um exemplar de L’usage du monde, de Nicolas Bouvier, do qual li apenas o começo e já vi que penarei na tradução. Inspirado pelos ares literários, arrastei Marie, Flávio e Daniel até a Rue du Pot de Fer – ruela transversal à Mouffetard – onde George Orwell morou durante as experiências vividas no livro Na pior em Paris e Londres. O livro é muito bom, principalmente a parte de Paris. A ruela hoje é tomada pelas mesas de restaurantes e quase não consegui localizar o número 6 que marca o imóvel que abrigou Orwell.

Arte na Rue Mouffetard
Depois disso caminhamos por ruas calmas, sempre margeadas por pracinhas e parques infantis, até chegarmos próximo da Grande Mesquita de Paris, com seu minarete ornamentado. Por trás dele está o Jardin des Plantes – mais um grande parque urbano, com zoológico e museu de história natural. O lugar é muito agradável, mesmo que seja para fazer o que fomos fazer lá: nada. Logo na entrada demos de cara com uma placa que indicava o prédio em que Lamarck havia morado. Árvores plantadas equidistantes, edificações monumentais, estátuas em meio a jardins, tudo contribuía para a sensação boa de estar em um lugar que mesclava natureza e razão humana. Daniel curtiu seu banho de sol e teve sua fralda trocada em mais um espaço aberto de Paris.

Jardin des Plantes

Daniel solta o verbo
Após pegarmos o ônibus de volta, descemos na praça St. Sulpice. Escapuli rapidamente para dentro da igreja a fim de ver a pintura de Delacroix que aos poucos se esvanece em uma de suas paredes. Há mais de uma pintura na verdade, mas eu queria ver mesmo era a que mostra a luta de Jacó contra o anjo. Além de a pintura ser muito bem feita, tecnicamente falando, achei interessante o comentário de Baudelaire, no livro que eu havia lido: “O homem natural e o homem sobrenatural lutam cada qual segundo sua própria natureza: Jacó curvado como um carneiro, estendendo todos os músculos, enquanto o anjo se presta à luta complacente, calmo e doce”. Desde então, sempre que me vejo curvado de tensão no trabalho, tento ser um pouco menos Jacó.

Detalhe da pintura "Jacó luta com o anjo" - Delacroix, Igreja de St. Sulpice
Flávio tinha recebido a dica de uma amiga francesa de que o restaurante Aux Charpentiers (na Rue Mabillon), pertinho do seu apartamento, era um lugar legal para comer algo tipicamente local. Foi uma das melhores refeições da viagem. Para mim foi a redenção do pato, que eu tinha comido em 2011 e não tinha ficado com uma boa impressão. Marie se deliciou no steak tartare. E Flávio saiu bendizendo a cozinha francesa, que até então ele julgava superestimada.

sábado, 30 de maio de 2015

Viagem França 2015 - Parte 1

Entre 01 e 15 de maio de 2015, eu, Marie e Daniel fizemos uma viagem por Paris, onde visitamos meu irmão Flávio, e pelo sul da França, na região da Provença.

Sempre que viajávamos de férias costumávamos ver casais estrangeiros com filhos pequenos pendurados às costas, ágeis e serelepes, encarando trekkings ou visitando museus. Planejamos fazer o mesmo quando Daniel nascesse, simplificando o que poderia parecer complicado. Talvez seja nosso, do brasileiro, esse desejo de criar uma redoma em volta dos filhos e acabamos por superprotegê-los. Assim, partimos em maio para a França após um check-up com o pediatra e colocarmos na mala os remédios mais usuais.

01/05/2015 e 02/05/2015

O voo de ida pela Air France era direto, Brasília – Paris, e correu tudo tranquilo. Daniel dormiu quase a noite inteira e acordamos, senão revigorados, em estado não deplorável. Flávio já nos esperava no Charles de Gaulle e nos ajudou a pegar o táxi até seu apartamento. Ele deu uma sorte imensa durante seu doutorado-sanduíche e contou com a ajuda de uma amiga de sua professora que lhe recebeu em um apartamento no coração de Paris. A pequena e estreita Rue Guisarde fica no 60 Arrondissement, repleta de bares e restaurantes, com torcedores de futebol e rúgbi em dias de semana. Ao norte está a igreja St. Germain-des-Près e ao sul a igreja St. Sulpice. Metrô, ônibus, supermercados e farmácias, tudo a não mais que duas quadras. Mas estamos na Paris mais antiga, e o prédio tem uma escada sinuosa, paredes e pisos irregulares, luminárias improvisadas, tudo bem retrô, cult, e o escambau, só que de verdade. O apartamento é atulhado de livros e decorado de maneira singular, o que o torna personalíssimo e quase nos permitia sentir a presença da sua proprietária, Irene.



Após nos alojarmos descemos para andar pelo bairro. O almoço tardio foi no Le Mondrian, que não era uma delícia, mas preencheu nossos vazios interiores. Daniel conheceu seu novo melhor amigo: o pão francês. A partir de então ele seria nossa tábua de salvação, mas também motivo de brigas com o nosso esfomeado. No caminho de volta passamos no Carrefour para abastecer a despensa e descansamos o restante do dia – ainda mais longo com o sol presente até às 21h no início do verão europeu.

À noite, Daniel acordou com febre. Após tomar o medicamento voltou a dormir e torcemos para não ser nada de mais.

03/05/2015

No dia seguinte, Paris amanhece com chuva, ainda que leve. Nossa ideia antes da viagem era conhecer lugares abertos, em que Daniel pudesse correr e nós arejarmos as mentes – como os jardins de Monet em Giverny, o Parc de la Villette, etc. Porém, partimos para o plano B e fomos até o Musée Delacroix, na Place Furstenberg, colada na St. Germain-des-Près. Trata-se da casa onde ele morava e do estúdio onde trabalhava, antes de morrer. Tinha lido pouco antes um livro sobre o pintor e foi interessante ver esboços de alguns de seus trabalhos e cópias feitas por outros artistas – suas obras principais estão espalhadas em outros museus e igrejas. Passamos rápido pelas salas internas, pois Daniel já estava com fome e fomos até o jardim para o seu lanche. É um espaço pequeno, mas muito bem cuidado, enclausurado pelas residências e pelo estúdio de Delacroix.

Place Furstenberg

Eu, Marie e Daniel no jardim de Delacroix

Flávio, Marie e Daniel no jardim de Delacroix
Para manter Daniel protegido da chuva e do frio decidimos ir para o Musée D’Orsay. Acho que foi nossa primeira e única incursão subterrânea (metrô) dessa viagem. Depois de penar nas escadarias com o carrinho priorizamos os ônibus, sempre acessíveis e com vista para a cidade. Almoçamos nos arredores, no Solferino, ainda sem mágica por parte da comida francesa. Era o dia do acesso gratuito aos museus e a fila era imensa. Porém, o assunto “prioridade” lá é levado muito a sério e fomos praticamente teletransportados para dentro quando viram que estávamos com o petit Daniel. Como já tínhamos visitado o museu da primeira vez que estivemos em Paris, resolvemos focar na sala do Van Gogh. Era quase impossível admirar algo ali, tamanha a quantidade de gente. O jeito foi rodopiar com Daniel pelo museu, para deixá-lo mais alegre. A sua febre ainda não tinha sido vencida e começamos a considerar a volta para o apartamento. Saímos pela margem do Sena e ao atravessar uma ponte qualquer notei, quase sem querer, que se tratava da Pont Royal, onde ocorre a principal cena de A Queda (Albert Camus) – livro que eu estava acabando de ler, sofregamente, em francês. Nela, o “juiz-penitente” de moral enviesada vê um vulto feminino apoiado ao parapeito, numa noite deserta e chuvosa. Ao passar por ela, ouve um barulho do corpo caindo no rio, seguido por gritos. Ao se voltar, reflete ante à emergência da ação requerida. Com o afastar dos gritos, retoma seu caminho. Indiferença pura, que aos poucos se transmuta em arrependimento.

Pont Royal
De volta ao apartamento tratamos de ligar para o seguro de saúde do cartão de crédito para descobrir quais hospitais poderiam atender Daniel. A febre se tornara mais alta e decidimos partir de imediato para o mais perto dos dois hospitais indicados. Ao chegarmos lá Daniel estava bem sofrido, com febre acima de 39 graus. Para nossa surpresa o Hospital Cochin não tinha pediatria! Apesar disso o atendente foi solícito e rapidamente chamou um táxi e nos ensinou o caminho para o Hospital Necker, especializado em crianças. Ao notarem a gravidade da situação fomos rapidamente atendidos. Os métodos lá são, digamos, bem mais hardcore.  Mas também bem mais diretos e eficazes. Eles mediram a temperatura pelo ânus, coletaram amostra de urina com uma sonda e escavaram a cera dos ouvidos com uma colherzinha. Em minutos descartaram a infecção urinária e diagnosticaram uma otite, provavelmente contraída no avião. Após o início do antibiótico Daniel já demonstrava uma reação, o que nos deixou bem aliviados.

04/05/2015

No outro dia cedo fui sozinho à farmácia comprar os remédios prescritos para Daniel e croissants para o café. A ideia era ficarmos em casa pela manhã e no máximo um passeio pelos Jardins de Luxemburgo à tarde, caso o sol se mantivesse firme. Daniel já estava animado e corria pra lá e pra cá no apartamento. Quando Marie foi fechar uma porta - daquelas pesadas do século passado - ele veio por trás e passou seu dedão no pequeno vão. O resultado foi terrível e a carne foi arrastada sobre a unha que também foi esmagada. O mar não estava para brincadeiras! Depois de passarmos água gelada e gelo, e de tranquilizarmos a mãe (meu irmão é psicólogo), corremos para a farmácia, onde eu havia visto que existia um lugar para fazer curativos. A atendente, mãe de um menino da mesma idade, se contorcia junto com Marie. Juntou gente para acompanhar o drama do brasileirinho e seu dedão. Mas saímos de lá com um OK! Thumbs up!

Ressabiados, almoçamos ali na esquina da Rue Guisarde, no La Grille St. Germain. Daniel ainda estava mais interessado no pão do que no restante das comidas. Flávio estava feliz com seu peixe insosso e eu e Marie descobrimos os prazeres da Panacotta (sobremesa). Depois da soneca de Daniel caminhamos sem pressa até a praça da igreja St. Sulpice. Lá ele se animou um pouco ao se descobrir um exímio assustador de pombos e esquecer o dedo. A partir dessa praça uma ruazinha estreita sobe até os Jardins de Luxemburgo.  É a Rue Ferou, em que um poema declamado por Rimbaud aos 17 anos na Praça de St. Sulpice preenche um imenso muro. O barco bêbado do poema danou-se a chacoalhar sobre as nuvens lá do céu, e a respingar sobre nós, já abatidos pelos últimos acontecimentos. Resignados, voltamos mais uma vez para o apartamento. Entre um gole de cerveja e outro, no fim da noite, era inevitável pensar se não tínhamos forçado Daniel além da conta ao trazê-lo em uma viagem como essas. Seja como fosse, estávamos preparados para tentar mais uma vez.

O caçador de pombos

Marcas de guerra

O Barco Bêbado de Rimbaud

quarta-feira, 18 de março de 2015

Elas



Procuro-as, mas não as encontro.
Fugidias, insistem em me escapar entre os dedos,
entre os lábios, entre os sonhos.

Circundo-as, mas não as capturo.
Sem sucesso, recolho-me sem voz.
A rouquidão é minha companheira agora.

Elas, já não me pertencem,
não me querem, não me procuram.
Viajam longe por outras paragens, nas ideias de outrem.

Vejo-as de longe, felizes e insinuantes.
Agudas e incisivas como só elas sabem ser,
obedientes que são a seus mestres fugazes.

Um dia, quem sabe, nos encontraremos de novo.
Dessa vez para valer, sem subterfúgios ou imbróglios incessantes,
mas com vivacidade e determinação, para uma obra construir.

E com uma das menores e mais inevitável dentre elas, me despeço então: fim.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Xangai, China - Relato de Viagem (Parte 3)



Em julho de 2014 fui à Xangai, na China, junto com meu amigo e chefe Edimarques para participar de uma conferência internacional sobre pontes. Foi a primeira vez em que viajei ao Oriente. Não comi gafanhotos e a comida chinesa que temos no Brasil não tem nada de chinesa. Ela é brasileira mesmo.


A conferência em si foi muito interessante, com trabalhos apresentados por engenheiros de vários países. Poucos tinham o inglês como língua mãe, o que tornou um esporte adivinhar de onde cada um era baseado no sotaque. Os chineses, sempre maquinais, martelavam as palavras no ar. Um deles me deixou na dúvida durante os primeiros cinco minutos de apresentação se falava inglês mesmo ou chinês. É difícil perceber o próprio sotaque, mas após um colega brasileiro desfilar seu inglês tupiniquim passei a notar claramente meus próprios entraves. Apresentei o nosso trabalho no terceiro dia, já mais relaxado após entender que se dava muito mais importância ao conteúdo do que à fluência no inglês (o meu é o inglês das ruas, totalmente informal e pleno de subterfúgios para driblar o parco vocabulário).


A gastronomia continuou a decepcionar durante a conferência, mesmo se tratando de um hotel cinco estrelas. No último andar funcionava um restaurante giratório, onde era servido o almoço. Macarrão e arroz jamais se encontravam com sal ou tempero. Pelancas faziam as vezes de carnes. O jeito era mastigar bem e empurrar goela adentro com coca-cola para forrar o estômago. Um dos eventos sociais da conferência era um jantar de gala, em que os únicos incautos engravatados éramos nós brasileiros. Um vinho chinês cumpria o papel social de entorpecer e tiras de porco salvavam a noite, enquanto os garçons depositavam garrafões de plástico de refrigerante nas mesas. Acabei por apreciar a informalidade chinesa. Completamos uma mesa ocupada por americanos, brasileiros, sul-coreanos e estudantes chineses, que nos deram dicas de manuseio dos pratos. Houve ainda uma ótima apresentação musical, com um virtuose de um desconhecido instrumento musical que lembrava um berimbau elétrico.


Outro evento social foi um passeio noturno de barco pelo rio Pudong. O espetáculo fica por conta das luzes dos modernos arranha-céus, ainda que envoltos por uma névoa constante que nem a chuva dissipava. Cerveja à temperatura ambiente e um bolo açucarado embalavam os navegantes. Quando percebi estava tentando conversar em inglês com nossos amigos portugueses.

Noite de Xangai

Rio Pudong em Xangai

No último dia de conferência fizemos uma visita técnica às instalações da Universidade Tongji. Eles exibiram orgulhosos seus modelos de prédios e pontes, testados em modernos túneis de vento e mesas vibratórias que simulam terremotos. Um dos laboratórios ficava a aproximadamente uma hora do centro de Xangai e o percurso era todo feito sobre uma estrada elevada, acima dos engarrafamentos e da balbúrdia da cidade, ladeada por gigantescos canteiros de obras e fantasmagóricos conjuntos habitacionais (cidades dormitório). Deu para ter uma ideia da imensidão que é Xangai. Esse campus afastado era ultramoderno, com enormes galpões. Ficou claro que os chineses não estão brincando de se modernizar. Eles investem pesado em educação e pesquisa e contam com um exército de estudantes dedicados.


A China tem ainda a fama de ser um paraíso de eletrônicos falsificados. Fama essa justificada. Em um fim de tarde fomos à região comercial Xujiahui, que vende de tudo. É impossível dizer o que é original e o que não é. Lojas com reluzentes letreiros da Samsung vendem os dois tipos, sem a menor cerimônia. À medida que subíamos os andares de incontáveis lojas o pudor dos vendedores diminuía. No último andar vi dezenas de chineses empacotando e desempacotando eletrônicos, mudando gabinetes de CPU’s, substituindo hardwares, numa orgia de microchips. Saí de lá sem comprar o HD externo que procurava por não sentir firmeza de que teria o produto correto.

Xujiahui, em Xangai

 No nosso último dia em Xangai fomos conhecer a área do Yu Garden. O jardim já estava fechado quando chegamos, mas há ruelas com quinquilharias para todos os gostos - inclusive o bom gosto - que valem a pena visitar. No entanto, fique atento às negociações. Há um jogo a ser jogado em cada parada. Não se acanhe em ofertar valores de até um décimo do que foi inicialmente pedido (claro que cada caso é um caso). A partir daí começa a dança da calculadora, que serve de intérprete no jogo da barganha (basta digitar os números e apontar). Se você disser que não quer mais o produto e que vai embora o preço cai mais um bocado e o vendedor chega até a te segurar pelo braço. Só oferte valores se estiver realmente disposto a levar o produto. Após uma desistência mal calculada fomos (bem provavelmente) xingados em chinês. A arquitetura de China antiga dá uma atmosfera bacana ao local e um belo contraste com os prédios modernos ao fundo. Uma ponte em zigue-zague leva a uma antiga casa de chás. Dizem que os maus espíritos não conseguem fazer curvas e por isso não atravessam essa ponte.

Brasileirice no Yu Garden

Arquitetura chinesa antiga no Yu Garden

Ponte em zigue-zague

O dia seguinte era dia de volta ao Brasil. É sempre bom regressar ao nosso lar. Tão bom quanto viajar. O voo teve a saída atrasada em quatro horas devido a uma tempestade. Esperamos dentro do avião, o que aumentou o tempo sentado e a canseira. Quase perdemos a conexão em Paris, mas no final deu tudo certo. A experiência de conhecer a China e de participar de uma conferência internacional foi fantástica e ficará marcada na memória. Quem sabe um dia eu consigo convencer Marie a voltar lá comigo para conhecermos um pouco mais desse outro mundo dentro do nosso mundo?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Xangai, China - Relato de Viagem (Parte 2)


Em julho de 2014 fui à Xangai, na China, junto com meu amigo e chefe Edimarques para participar de uma conferência internacional sobre pontes. Foi a primeira vez em que viajei ao Oriente. Não comi gafanhotos e a comida chinesa que temos no Brasil não tem nada de chinesa. Ela é brasileira mesmo.


Aproveitamos a manhã livre do primeiro dia e fomos conhecer um pouco de Xangai. Saímos a pé do hotel em direção à Nanjing Road. No caminho, inúmeras construções, viadutos que se entrelaçavam freneticamente e pessoas brotando das calçadas davam o tom da metrópole chinesa moderna. O calor se tornava ainda maior dado o enclausuramento em meio aos prédios altos. Demos a volta por dentro de um parque que funcionava como uma ilha de tranqüilidade. Idosos chineses se movimentavam lentamente, em exercícios meditativos. Uma vez na Nanjing Road começa o bombardeio de vendedores e ambulantes, que apareciam deslizando em duas rodinhas presas aos calçados, oferecendo produtos de marcas famosas na versão chinesa. Há poucos ocidentais caminhando num dia de semana em Xangai e éramos facilmente identificados em meio à multidão.

A Nanjing Road pouco difere de calçadões mundo afora, com lojas globalizadas. São poucas as lojas tipicamente chinesas que conseguiram se manter naquele point. No entanto, basta entrar em uma das vielas transversais para dar de cara com o autêntico comércio chinês, repleto de cerâmicas, espadas samurai ou quinquilharias. Somos transportados para outra cidade, a Xangai de verdade que nem todo turista quer ver.

Nanjing Road - o Lado A de Xangai

Por trás da Nanjing Road - o Lado B que nem todo mundo escuta
The Bund
Continuamos caminhando em direção ao The Bund, a margem do rio que corta Xangai e de onde se vê a famosa skyline repleta de prédios futuristas. Pouco antes de chegar lá, fui abordado por uma chinesinha simpática que me pediu para tirar uma foto dela e de sua amiga, em frente a um prédio qualquer. Atendi prontamente e elas pediram outra foto. Em meio à multidão não consegui entender bem o que elas pretendiam registrar ali, mas pensei se tratar apenas de duas inocentes colegiais chinesas. Elas puxaram papo dizendo ser de uma pequena cidade do interior da China e que era a primeira vez delas na cidade grande. Gostavam de conversar com estrangeiros para treinar o inglês. Depois perguntaram se gostaríamos de acompanhá-las para tomar chá. Agradeci e disse que estávamos com o tempo contado e que queríamos conhecer um pouco de Xangai. Elas insistiram dizendo que era tomando chá que se fazia amizade na China. Edimarques fez sinal que não com a cabeça, pois tinha lido antes no Brasil sobre o golpe do chá. Elas insistiam em tomar chá em uma loja específica, onde provavelmente o dono nos cobraria um valor absurdo. Frente à situação, e sem ter como questionar, turistas acabam pagando caro por um chá comum.

Depois de dispensar nossas amigas do chá, chegamos ao The Bund. Uma estátua de Mao se destaca junto ao muro florido. A vista é realmente impressionante. De um lado o distrito moderno, com arranha-céus. Do outro, as fachadas europeias de prédios mais antigos. Só não passamos mais tempo porque o sol nos castigava e não havia sombra para se abrigar. Voltamos a pé, ziguezagueando por ruas a esmo. Paramos em uma esquina onde havia dois restaurantes. Pelo público jovem e pelas mesas de fórmica era alguma rede chinesa de pratos executivos estilo fast food. Sem cardápio em inglês escolhemos pela foto um macarrão com bife aparentemente inofensivo. O que veio foi um ensopado quente e apimentado, com macarrão e carne dentro. Acompanhava um prato menor com algas. Recebemos os usuais chopsticks e uma colher. Após alguns minutos de luta pedimos talheres, mas eles não tinham ou não entendiam o que queríamos. O calor,  que já nos queimava a pele, agora nos cozinhava por dentro. Suando em bicas pedimos uma cerveja japonesa. Ela veio natural e os copos quentes, recém lavados. Só nos restou rir da situação e continuar suando. Lá pela metade do prato a garçonete veio em nosso socorro com garfos que eles deviam ter perdido há tempos. Saindo do almoço foi impossível resistir ao ar condicionado e o sorvete do McDonalds na esquina em frente.

À noite, depois da recepção que marcou o início da conferência, entabulamos conversa com um polonês-canadense movido a uísque. O assunto foi de pontes a futebol. Quando chegou no sentido da vida decidimos ir dormir e recuperar as energias. Na madrugada seguinte haveria o jogo do Brasil pela semi-final da copa e eu já tinha colocado o alarme para a partida.

O que posso dizer sobre ter assistido ao trágico jogo do outro lado do mundo? Foi triste também, mas com pequenos requintes de crueldade. Acordei desorientado pelo fuso e pelo lugar. Resolvemos descer até o lobby do hotel para ver se havia alguma alma acordada a fim de torcer. Apenas um funcionário do bar dormia recostado num sofá. Voltamos ao quarto e assistimos o Brasil ser massacrado enquanto comentávamos o jogo pelo whatsapp com os amigos distantes. Impossível não notar os sorrisos de canto de boca nos demais hóspedes durante o café da manhã. Durante a conferência, todos aproveitavam para fazer piadinhas com o Brasil. É... faz parte do jogo.