sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Embaixo da ponte

Rui estava sentado em um sofá empoeirado, juntamente com outros homens uniformizados que conversavam animadamente sobre a partida da noite passada. Apesar da algazarra, ele tentava ler um livro que vinha prendendo sua atenção na última semana. Parecia pairar um pouco distante daquele ambiente, mas sempre era trazido de volta quando o encarregado chegava com uma folha nas mãos. Era uma solicitação de motorista para conduzir um dos engenheiros ou técnicos que trabalhavam naquela velha instituição, outrora conhecida por abrir estradas e desbravar o país. Todos estavam um pouco apreensivos em não serem escolhidos para acompanhar o engenheiro Castro, conhecido por sua arrogância.

- Sei que vários engenheiros do órgão não dirigem a palavra ao Dr. Castro. Eles não vão com a cara dele, mas ele não quer nem saber. Vive mandando cumprirem as tarefas mais ridículas, apenas para humilhá-los – disse Tadeu, alisando o espesso bigode branco.

- Isso não é nada. Já quase o vi sair no tapa com um dos estagiários. Só porque o moleque havia grampeado os documentos errados – retrucou um motorista mais novo.

- É, mas o pior dele ele guarda para o Dr. Mauro. Parece que eles são rivais desde que entraram para o órgão, décadas atrás – lembrou Tadeu.

- É verdade que eles vão ter que trabalhar juntos? Parece que veio uma ordem de cima para baixo, algo a ver com umas pontes – perguntou o jovem motorista.

- Também ouvi falar disso, mas acho que não. Seria uma maldade, para eles e para quem estiver por perto – raciocinou Tadeu.

O dia transcorreu calmamente e não houve nenhuma solicitação. Rui já estava pegando sua mochila quando o encarregado passou a cabeça pelo vão da porta, sem abri-la completamente.

- Rui, amanhã esteja aqui às sete da manhã, você vai levar o Dr. Castro em uma viagem pela estrada do moinho.

- Ah...ok. Somente ele?

- Não, além dele vão mais dois engenheiros. Até amanhã! – disse o encarregado antes de bater a porta.

***

Rui estava em pé ao lado da caminhonete quando viu Castro se aproximar. Ele parecia sempre esbaforido, do tipo que se cansa ao subir um lance de escadas. Permaneceu falando ao celular e fez um gesto com a cabeça para que Rui abrisse o carro. Ele se instalou no banco da frente e se pôs a mexer no rádio e no ar-condicionado. Poucos minutos depois, outros dois homens chegaram. Eram Mauro e Cássio. Apenas o segundo desejou bom dia e logo estavam a caminho da estrada do moinho. Castro orientou Rui para que seguisse até cruzarem com a ferrovia continental, onde fariam a vistoria de um viaduto. Depois disso todos permaneceram mudos como esfinges, embalados pelo trepidar da estrada e pela música erudita que escorria na manhã abafada.

Ao parar em um cruzamento Rui pôde observar o movimento de trabalhadores que saltavam dos ônibus e se punham a marchar. Uma mulher de beleza gasta atravessou o sinal e um motoqueiro lançou-lhe um gracejo dos mais mundanos. Ela apenas fingiu não ouvir e seguiu seu caminho, sem conseguir disfarçar o sorriso no canto dos lábios. O motoqueiro a seguiu com o olhar até onde pôde. Quando o sinal abriu ele voltou a encarar o trânsito. Apenas Rui notou o breve desencontro, quando a mulher se virou para o motoqueiro apenas para vê-lo partir, levando consigo alguns sonhos.

Após deixarem a cidade para trás o sinal do rádio começou a falhar e Castro o desligou sem titubear. Não havia espaço para os velhos papos sobre o clima ou sobre futebol, normalmente reservados aos motoristas. Era algo a que Rui se acostumara, apesar de não torcer por nenhum time em especial e não assistir a sequer uma partida nos últimos anos. Percorreram mais de cem quilômetros em silêncio, quando finalmente chegaram ao viaduto.

- Você trouxe algum facão? – Castro olhou nos olhos de Rui pela primeira vez.

- Sim, tem um na carroceria. Você quer que eu pegue?

- Não, não há necessidade para esse viaduto. Mas talvez tenhamos que abrir caminho na mata para chegar embaixo de algumas das pontes que veremos mais tarde.

Os três engenheiros saltaram da caminhonete e seguiram para o viaduto. Rui adorava essa parte do seu trabalho. Mesmo quando levava alguma autoridade para inaugurar uma obra ou para ver uma ponte que caíra, ele permanecia no carro. Quando todos voltavam suados e sujos de poeira, ele era o único a reter uma condição de limpeza respeitável. Era seu dever manter o carro ligado e observar o entorno. Afinal, não se tratava de uma região muito segura.

Rui alcançou seu livro embaixo do banco e pôs-se a ler, alternando o olhar entre os parágrafos e a pista à frente. Os três homens entraram sob o viaduto. Mauro empunhava uma máquina fotográfica e Cássio uma prancheta. Castro ia mais atrás, sem nada nas mãos, apontando para a estrutura de concreto. Poucos carros passavam pela rodovia e o sol parecia apressado em sua escalada. Logo o asfalto começou a tremular e urubus passavam voando baixinho. Dez minutos depois os engenheiros surgiam sobre o viaduto, subindo com dificuldade o íngreme talude. Castro pôs as mãos na cintura e falava algo para Mauro, que respondia gesticulando bastante. À distância não dava para precisar se era o início de uma briga ou apenas uma acalorada discussão técnica. Somente quando Cássio interveio eles desceram até o carro.

- Siga para a próxima ponte. Ela fica uns oito quilômetros adiante – disse Castro.

Estavam prestes a retornar para o silêncio abismal quando Cássio resolveu quebrar o gelo:

- Puta que o pariu, mas que fedor hein? Aquela vaca já estava putrefata.

- É, acho que um trem bateu nela – disse Mauro olhando pela janela.

- Impossível. Não restaria muita coisa para os urubus neste caso – disse Castro.

- É, talvez... Mas e o jogo de ontem hein? Que pelada horrorosa. Você assistiu Rui? – desviou Cássio.

***

A tarde foi longa. Não havia uma nuvem sequer no céu. A cada parada Rui aproveitava para relaxar da tensão e lia um pouco mais. O romance caminhava para um desfecho trágico, ele podia sentir. Os três engenheiros desciam em mais uma ponte quando Rui resolveu descer para se aliviar atrás de uns arbustos. Próximo de sua mira jazia uma ossada de boi. Nada resistia muito tempo naquele ambiente árido. Ao retornar ao carro ele pôde ver Castro praguejar contra uns galhos que ele desbastava com o facão. Um galho leve e repleto de pequenos espinhos envergou com um dos golpes e se voltou contra a testa do velho engenheiro. Eles continuaram a inspeção e ao retornarem Castro tentava estancar o sangue com um lenço sujo e amarrotado.

- Rui, vamos tocar para a próxima cidade. Já está tarde. Lá a gente passa no hospital para o Castro ver esse corte e depois dormimos no primeiro hotel que aparecer. – disse Cássio.

Castro nada disse. Estava obviamente fulo da vida. Mauro por sua vez apenas olhava pela janela, com a mão no queixo.

Castro levou três pontos na testa. Pouco depois estavam em um hotel simples, mas digno, na beira da estrada. Os lençóis esgarçados denotavam a intensa rotatividade de hóspedes. Rui observava um quadro barato, de traços grosseiros – único objeto de decoração do quarto –, quando alguém bateu à sua porta. Era Cássio.

- Rui! Minha esposa ligou agora há pouco. Pelo visto nosso filho resolveu nascer antes da hora!

- Nossa! E agora? Quer que eu leve você de volta?

- Não, não... Não pretendo atrapalhar o trabalho. Além disso, meu cunhado mora aqui e está me dando uma carona. Ele já deve estar chegando aqui.

- Ah, ainda bem.

- Sim. Mas olha... É bom você... – Cássio foi interrompido por uma buzina. É ele, meu cunhado chegou! Estou indo! Tentei falar com Mauro e com Castro, mas eles já estavam dormindo e não abriram a porta de jeito nenhum. Amanhã eles devem concluir o serviço e talvez vocês voltem ainda no fim da tarde. Até!

***

No dia seguinte Mauro e Castro receberam a notícia da partida de Cássio durante o café da manhã. Os dois pareceram indiferentes e permaneceram encarando suas xícaras fumegantes. Logo estavam na estrada. Aos poucos o céu se fechou de nuvens cinzentas, mas a chuva não passava de um blefe. Os dois engenheiros vistoriaram três pontes pela manhã e aos poucos passaram a conversar sobre o que viam.

- Mauro, essa última ponte está com um sério problema no pilar central. – disse Castro.

- Sim, ela deve ser prioridade quando voltarmos. – Mauro assentiu.

Enfim um pouco de civilidade, pensou Rui. Após o almoço ficou definido que vistoriariam apenas mais uma ponte – a maior delas, com mais de quinhentos metros de extensão.  A ponte sobre o Rio das Cruzes. Era um dos poucos rios da região que contava com águas caudalosas e regime turbulento. Ouvia-se o seu rugido mesmo a centenas de metros de distância.

- Mauro, você já leu O Estrangeiro? – disse Castro.

- Não, por quê?

- Por nada. Sempre penso nele quando faz calor como hoje. É um dos meus livros preferidos. Você deveria lê-lo.

- Quem sabe eu leio esse mês que vem, vou estar de férias. – disse Mauro.

O mato ao lado da ponte era alto e volumoso. Os dois engenheiros embrenharam-se nele e aos poucos foram sumindo do campo de vista de Rui. Castro ia à frente com o facão abrindo uma picada e Mauro o seguia, carregando a máquina e a prancheta. Rui terminou as últimas páginas do seu livro e recostou-se no banco, como que exaurido pelo que lera. Somente ao tirar os óculos e guardá-los no porta-luvas foi que ele viu no relógio: quarenta minutos já haviam se passado. Resolveu esperar mais cinco minutos, e nada aconteceu. Ao soltar o cinto de segurança, Castro despontou na cabeceira da ponte. Ele tinha o rosto ensopado de suor e as mãos livres. Acendeu um cigarro e disse a Rui que eles iriam voltar. Rui tentava, mas não conseguia desviar o olhar do ombro de Castro; era uma pequena mancha de sangue.

- Eu sabia que esse curativo estava malfeito! Voltou a sangrar assim que fiz um pouco mais de esforço. – disse Castro.

Rui ficou calado. Ligou o carro e esperou um pouco mais.


- Vamos. Não se preocupe com Cássio. Ele precisou ficar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Escombros

Uma única réstia de luz ilumina o espaço vazio em que me encontro. Não lembro bem o que aconteceu apenas do estrondo. Aparentemente estou inteiro e não quebrei nada. Ainda bem, odiaria quebrar um braço ou uma perna agora, após ter passado incólume pelos perigos da infância e da juventude. Não consigo me levantar, pois minhas costas logo batem em algo pontiagudo. Sorte não ser claustrofóbico. Conheço pessoas que não suportariam sequer poucos minutos sem falta de ar. O que será que as aflige mais, o confinamento físico ou o aprisionamento da mente? Temos que reconhecer, nós humanos somos tão frágeis emocionalmente quanto o somos fisicamente. E sempre que nos esquecemos de cuidar de uma de nossas metades, a outra não tarda em reclamar a mesma dor.

Será que já há pessoas lá fora procurando por sobreviventes? “Alôooo, tem alguém aí?” Minha voz sempre soa tão estranha, nunca parece combinar com a imagem que faço de mim mesmo. Ainda assim ela ecoou tão forte que nem parece haver escombros sobre minha cabeça.

Sem respostas.

Melhor começar a fazer algo para sair daqui por meus próprios meios. Tateio alguns destroços à minha frente com cuidado para não desestabilizar minha apertada câmara de sobrevivência. Ao segurar o que parecia um pedaço de tijolo ele se desfaz em minha mão, sobrando nada além de uma sensação estranha. Na verdade um cheiro. Acho que me lembro dele, de quando ainda era um jovem adulto e resolvi que aprenderia a cozinhar. Típico da idade, comecei por um prato complexo, um carneiro com ervas  que demandava horas ao forno. O cheiro de queimado que agora invade minhas narinas é o mesmo que preencheu a cozinha naquele dia. Porque será que minha mente viaja por pensamentos tão longínquos quando eu deveria estar ocupado em achar uma saída daqui? “Tem alguém aí? Eu estou aqui embaixo!”

Silêncio. Inutilidade. É melhor pensar.

Ergo a cabeça para tentar ver de onde vem o feixe de luz, mas logo a bato em destroços pulverulentos  que enturvam minha visão. Começo a lacrimejar ao sentir pequeninos grãos de areia deslizarem com  garras fincadas nas minhas córneas. Lembro de ter sentido coceira semelhante nos olhos durante umas férias, anos atrás, em que teimei escreveria um livro. Todas as noites esperava o mundo silenciar e me punha a digitar o que viesse à mente. Permanecia na batalha até o sono esfumaçar minha visão, olhos em chamas.

Já sem maiores pudores, faço força para me levantar empurrando o que encontrar pelo caminho. O objeto pontiagudo que me feria as costas acaba por ceder e sinto renovar a minha esperança. Continuo o esforço animalesco até sentir um leve tremor interno. Meu joelho direito sente uma fisgada na lateral e desabo embebido em suor e lágrimas. A dor é forte, mas não tão forte quanto à da lembrança de uma maratona abandonada perto do fim. Treinara bem mais do que de costume, mas não o suficiente, e terminei por voltar para casa sem medalha e com um joelho inchado.


O que esses escombros sabem sobre meus percalços e por que não me deixam ver uma saída? “Todo esforço em vão” – parecem dizer as vozes daquelas frestas. Tantos planos começados e largados pelo caminho. Trabalhos sem fim, apenas começos. Se bem entendo não há perigo de morrer soterrado aqui, apenas o perigo de aqui ficar eternamente dando voltas em torno de mim mesmo. Volto a apoiar os pés no chão e tento erguer o peso novamente, utilizando o meu joelho ainda intacto. Meu objetivo agora é fazer voltar a pedra ao cume da montanha, não interessa quantas vezes ela role de volta até à base.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Barulhos de Ilusões - Alter Ego

Barulhos de Ilusões - download aqui



O sol estava a pino como sempre convinha a melancólicas tardes de domingo. A rua acidentada de barro era só silêncio, até que um carro surgia no horizonte levantando a poeira. Após abrir um portão de ferro seus jovens ocupantes entravam no terreno arenoso com pequenos arbustos esparsos. Sem muitas palavras eles abriam aos solavancos a pesada porta de madeira do galpão que ficava nos fundos, recheado de material de construção, pó e eventual vida animal. Com uma vassoura eles faziam um círculo no centro do espaço livre, empurrando a sujeira para os cantos de parede. Em seguida começavam a descarregar caixas e equipamentos. Pouco depois surgiam outros carros, cujo som podia ser ouvido à distância naquele bairro dormente. Outros jovens apareciam, empunhando cigarros e mais equipamentos. Aos poucos montava-se o palco, todos de frente uns para os outros. Com o suor descendo pela testa, eles saíam para um último respiro do lado de fora do galpão.

- E aí, vamos começar?

O som das baquetas contando até quatro já ecoava antes mesmo das primeiras distorções e microfonias revirarem o ar pesado de poeira. Passeando por melodias originais, poucas vezes ouvidas fora daquele ambiente, eles seguiam martelando seus instrumentos em grandiosas apresentações solitárias. No terreno, galinhas corriam assustadas, no que parecia uma dança de gosto duvidoso. Após duas horas de catarse sonora todos saíam para tomar água na casinha vizinha ao galpão e respirar um pouco de ar puro. Aproveitavam sempre para conversar sobre determinada passagem de uma música que precisava ser aprimorada, sobre outras bandas e sobre a vida em geral, não raro descambando para assuntos filosóficos. Retomavam e passavam o setlist mais uma vez, caprichando no final de cada música com bends acachapantes e pratos enraivecidos. De lá voltavam para o fim de semana tranquilo, à paisana, repassando mentalmente durante toda a semana os sons do galpão.



A descrição acima é de um típico ensaio dos primórdios da banda Alter Ego, e serve para entrar no clima da seleção de músicas feita no álbum “Barulhos de Ilusões” – livre para download aqui. O registro vai do tosco ao sublime, com gravações e composições de qualidade as mais variáveis. A ideia foi marcar o fim de um ciclo, com a disponibilização on-line da coletânea que engloba o período de 1999 a 2010. Após o fim da Alter Ego, um novo projeto surgiu com a atual banda Efeito Doppler, e parecia não haver tido um marco que fizesse essa transição. É isso que almeja esse álbum. A seguir, tem-se breve comentário sobre cada música e a fase que ela representa. Optou-se por não colocar as músicas em ordem cronológica no álbum, exatamente para permitir o passeio por sonoridades bem diversas.

Judas estalou um beijo (2009) – É uma das poucas unanimidades até hoje e uma das melhores músicas da banda. A música é de Zoroaster, com letra sagaz de seu pai, Graco Medeiros (grande colaborador da banda). Seu instrumental pegado lembra um rock do sertão. Gravação durante a passagem de Gabriel Leopoldino e Fábio Bilica pela banda, com Marcelo – que já havia passado pela guitarra e pelo baixo – assumindo a bateria. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Gabriel (guitarra e vocal) / Fábio Bilica (baixo) / Marcelo (bateria)

Alter Ego (2007) – Música que busca resumir a essência da banda, da época em que Duda assumiu a bateria. Faz parte da primeira leva de composições de Zoroaster para a banda. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)

Talvez (2000) – Composição de Marcelo, faz parte da fase galpão, marcada por guitarras violentas e letras niilistas. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Flávio (guitarra) / Fernando (baixo) / Bruno (bateria)

Terceiro mundo (2000) – esta é a quintessência da fase galpão e a primeira composição da banda. É marcada por riffs com afinação em ré, com contribuições de todos os componentes à época (Marcelo, Fernando, Flávio e Bruno) e com letra rasgada de Hanyel que assumia os vocais. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Fernando (guitarra) / Flávio (baixo) / Bruno (bateria)





Um dos primeiros registros (2000) ainda foi em fita K-7
Absorto (2008) – composição intimista de Hanyel, uma das músicas mais contemplativas da banda. Começava uma aproximação com melodias mais suaves e viajantes. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)

Isso é o que restou (2003) – música da fase em que Tiago e Éder tomavam conta da cozinha da banda. Composição de Vinicius, que participava de outra banda com Marcelo. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Tiago (baixo) / Éder (bateria)

Poema esquecido (2008) – composição de Fernando. Faz parte da sessão de gravação no Trampo, em que foram gravadas Absorto e Manhã. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)

Mundo vermelho (2003) – música de peso, com riffs elásticos e letra incisiva à la Terceiro Mundo. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Tiago (baixo) / Éder (bateria)

Durante o caminho (2007) – Música de Marcelo, de ritmo cadenciado. Dela saiu o título da coletânea Barulhos de Ilusões. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)

Manhã (2008) – balada Zoroástica, com ótima melodia. O arranjo da gravação foi bem alterado para apresentação no Festival da Canção da UFRN. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)

Transgênico (2000) – música da fase galpão, com afinação em ré. A letra aleatória de Fernando foi colada à música de Marcelo. O nome da música foi a última parte acrescentada. Em recente conversa com Flávio surgiu a melhor definição para o solo final de guitarra: parece que deram uma guitarra para um árabe raivoso que não sabia tocar. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Fernando (guitarra) / Flávio (baixo) / Bruno (bateria)

Rapunzel e a Torre de Babel (2009) – já na fase mais madura, Rapunzel foi a música mais bem-sucedida, conquistando a segunda colocação no Festival da Canção da UFRN. A gravação é ao vivo nesta apresentação. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Gabriel (guitarra e vocal) / Fábio Bilica (baixo) / Marcelo (bateria)

Erro (2003) – esta música é irmã de “Isso é o que restou”, com destaque para o solo errático de guitarra de Marcelo. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Tiago (baixo) / Éder (bateria)

Brisância (2007) – esta era a música de novela da banda. Cheia de poesia, foi a primeira música da nova fase após entrada de Zoroaster para a Alter Ego. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (guitarra e vocal) / Fernando (guitarra) / Marcelo (baixo) / Duda (bateria)
As bônus tracks trazem curiosidades:

A última reada (take 3) (1999) – esse é um take da “composição” de Terceiro Mundo, mostrando o “processo criativo” da banda. À época Birinha ainda era o vocalista, que nessa gravação soltava palavras a esmo, no melhor estilo Zack de la Rocha. Ainda sem nome, nos referíamos a ela simplesmente com “a última reada”. Formação: Birinha (vocal) / Marcelo (guitarra) / Fernando (guitarra) / Flávio (baixo) / Bruno (bateria)

Jaya Radha Madhava (2007) – mantra de um obscuro álbum new age resgatado por Zoroaster, que foi apresentado no festival indiano Radhastami. Quem diria os rumos que a banda do galpão tomaria? Talvez seja a única vez em que foi utilizado um teclado na banda. A gravação é precária, em fita k-7, com direito a rangidos de uma cadeira de balanço de meu pai. Formação: Hanyel (vocal) / Zoroaster (violão) / Flávio (guitarra) /Fernando (teclado)

Raniere (2001) – música de cunho mais pessoal de Hanyel, que a cantava com certo pesar. Apesar de haver uma gravação de estúdio, optamos por incluir uma gravação caseira, feita no galpão, que transmite bem a ambiência dos ensaios. Formação: Hanyel (vocal) / Marcelo (guitarra) / Fernando (guitarra) / Flávio (baixo) / Bruno ou Juliana, não se sabe (bateria)


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A cura para a monotonia estética



Mal entrei na sala e fui logo reparando na decoração estonteante que grassava pelas paredes, tetos e, pasmem, até mesmo o piso. Quadros de espessas camadas de tintas, beirando o grotesco, lutavam por cada metro quadrado junto a esculturas penduradas e painéis de cores vivas. Ladrilhos talhados por intrigantes figuras geométricas esgueiravam-se pelos rodapés, espiralando rumo ao teto em movimentos burlescos. Fui conduzido por uma jovem moça de cabelos esverdeados até a varanda ensolarada que fazia as vezes de escritório, passando por pisos caleidoscópicos e cortinas que tilintavam esvoaçantes, conduzidas em sua dança pelo vento galante que exalava o cheiro do mar.  Sentei-me na pesada cadeira de madeira, cujas pernas lembravam patas animalescas e me pus a beber a água aromatizada que esperava visitas sobre uma bandeja cromada redonda, talvez a única peça de ares minimalistas daquele ambiente. Em uma única palavra: atordoante.

Aquele lugar me havia sido indicado por inúmeros conhecidos como a quintessência da arte moderna em nosso país. O mal de que eu sofria, aguçado pela opressão muda de objetos sem personalidade, seria aplacado pelo tal Gino – guru das formas e cores. Contrariando expectativas, ele entrou na varanda de calça jeans, camiseta e sandálias. Sem qualquer outro adereço além de seus óculos finos, sem marcas artísticas e sem afetação, sorriu para mim e estendeu a mão.

- Fique à vontade, vamos, coloque sua mochila nessa cadeira. Seria redundante nessa terra de uma única estação dizer que está quente hoje, não acha? Mas está mesmo, muito quente. Então, o que você procura que eu possa te ajudar a encontrar?

Fosse qual fosse a dele ele atuava muito bem, sem qualquer conotação ruim. Afinal, atuamos todos nós. Seja você fazendo as vezes de circunspecto consultor técnico durante uma palestra profissional, seja o caixa do banco em seu papel maquinal. No meu caso, mantinha a mão no queixo no papel de ávido curioso cultural, aspirante a mecenas. Após minha breve explicação, nunca tão bem proferida quanto em meu prévio ensaio mental, Gino se levantou sem muito esforço, como as pessoas magras geralmente o fazem, e fez menção de que o acompanhasse.

- O seu caso é simples, mas nada banal. Você deve estar sofrendo de monotonia estética, uma doença apenas recentemente descoberta nos países nórdicos, os únicos a terem atingido um estágio avançado de desenvolvimento tal, a ponto de equilibrar a riqueza real e a abstrata. Vai entender né? Os Estados Unidos, com toda sua pujança econômica, sofrem de grave desequilíbrio entre essas duas riquezas, mantendo baixo nível de espiritualidade, de senso estético, cultural.

Andamos até uma das extremidades da varanda, de onde se avistava uma jangada solitária próxima à costa. Gino apontou em sua direção:

- Vê aquele barquinho, aquelas ondas arrebentando, aqueles recifes? Duas pessoas com a mesma câmera podem captar imagens completamente diversas. Uma capta o sublime, a outra capta lixo digital. Tudo depende do olhar e da interpretação que se dá às coisas, aos momentos. Uma obra sem explicação, sem uma história por trás, é somente uma obra sem vida. É preciso debulhar a obra, entrar nos detalhes e só então se tem algo digno da arte. E faça o que fizer, não deixe a obra passar em branco. Se o fundo é claro, ela deve ser escura. Se o ambiente é silencioso, ela deve ser barulhenta. Se o caos reina, traga a ordem.
 
Gino seguiu discorrendo sobre suas ideias, ora revolucionárias, ora convencionais, mas minha mente seguia vagando com a jangada que rondava os recifes. Nela um pescador dominava seu métier por completo, sem medo de se chocar contra as pedras. Conduzia com o vento e com as ondas, não contra eles. Provavelmente já não pensava em suas ações, apenas as executava em simbiose com o seu habitat. Unido ao seu labor, tornaram-se uma só obra. Arte.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Escolha

Dando continuidade ao projeto "SEXTA-FEIRA É DIA DE TEXTO", segue o conto "Escolha". Mais um de feições entre o real e o abstrato, entre a loucura e a lucidez.

Lara ainda não sabia, mas os próximos minutos de sua vida alterariam por completo a sua percepção de mundo. Ela não gostava muito de imprevisibilidades e procurava organizar detalhadamente o seu tempo. Fixava alarmes e lembretes até para beber água – dois litros por dia, em porções convenientemente espaçadas entre si e as refeições. Atinha-se a rotinas para evitar desperdícios e levantava de sua mesa a cada duas horas para alongamentos e pequenos recessos nada espontâneos. Gabava-se frequentemente de seu autocontrole e de sua aparentemente perene estabilidade emocional. O mundo era complicado o bastante para que muitos pedissem para descer, mas não o suficiente para se tornar indomável às suas planilhas e algoritmos minuciosamente planejados. Além disso, ela separava o seu lixo e dava preferência a embalagens retornáveis. Pagava seus impostos e contas em dia, realizava check-ups anuais, se exercitava regularmente e mantinha registros de suas corridas e dos seus batimentos cardíacos. Sempre batia sua meta de leitura mensal e alternava caminhos para o trabalho, como prevenção a doenças cognitivas. Foram anos e mais anos de intenso labor e atenção continuada, para no fim desaguar no evento premente que a sacudiria por completo.

Lara acabara de sair do trabalho e agora se dirigia ao lava-jato onde deixara seu carro. Após pagar pelo serviço entrou na sua cápsula de ambiente controlado e tomou seu lugar na longa fila de carros que obedeciam bovinamente ao sinal vermelho. Estranhamente, havia esquecido de levar os arquivos do curso de idioma que escutava no caminho para casa e resolveu, por ímpeto, ligar o rádio. Os lavadores haviam mexido na programação e em vez do habitual martelar de notícias Lara ouviu uma música de timbres atemporais. Não saberia dizer sequer a década daquela canção, não fosse a voz grave a delatar o seu célebre compositor. Lembrou-se imediatamente da história que contara uma amiga sua do trabalho de inclinações mexeriqueiras, que sempre falava um pouco perto demais. Havia enlouquecido o pobre cantor. Ele deixara uma vida inteira para trás e agora perambulava sem rumo e sem documentos. “Cheio de dívidas. Parece que não pagou a pensão dos filhos...”, dissera sua amiga arregalando os olhos, satisfeita.

Entregue a reflexões quanto ao sentido de largar tudo para trás daquela forma – de cartões de crédito a planos de fidelidade –, Lara quase atropelou duas mulheres que atravessavam a faixa de pedestres. Graças aos seus exercícios diários de manutenção do foco e aguçamento da visão periférica, ela teve o reflexo necessário para frear a tempo. As duas mulheres, que seguiam em direções opostas, viraram o rosto para Lara, cuja familiaridade a sobressaltou de imediato. “Como era possível? Será que...? ” Uma delas tinha o rosto precocemente envelhecido e vestia um elegante sobretudo cinza, cor de chumbo. Ela fixou um olhar rancoroso em Lara, com as sobrancelhas arqueadas e a xingou, enquanto mantinha o passo apressado dos cosmopolitas. A outra mulher tinha o rosto quase infantil e trajava um vestido despojadamente puído, de um colorido desavergonhado. Ela manteve o passo sereno, enquanto sorria para Lara de maneira reconciliadora. Pouco antes de voltar o rosto para o seu caminho, Lara pôde ler seus lábios dizerem pausadamente: “Escolha”. Mas de onde ela as conhecia?

Refeita do susto, Lara respirou fundo. Voltou os olhos para o retrovisor e viu que não havia mais carros na rua outrora movimentada. As calçadas antes apinhadas de gente restavam desimpedidas. Seu relógio de pulso parara, seu celular tinha a tela congelada e o caminho a sua frente fizera-se reta rumo ao infinito. Um rio dentro de si parecia transbordar e ela puxou um espelho para si, a fim de não deixar a maquiagem borrar. Nos seus olhos reconheceu as opções dentre as quais teria que decidir. Olhou demoradamente para o céu lá fora deixando que os pensamentos fluíssem livremente, e alguns eternos minutos pairaram suspensos. Agora ela sabia exatamente o que havia de ser feito. Enxugou as lágrimas e dobrou cuidadosamente seu lenço antes de guardá-lo. Reprogramou o rádio, desligou o motor e pendurou a chave na sua bolsa. Em seguida desceu do carro e acionou o alarme, tomando a precaução de checar se a porta estava trancada. Por fim, Lara levantou a cabeça e caminhou com passos firmes rumo ao seu destino.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A aula

A ideia para 2016 é repetir a façanha de 2013 e publicar pelo menos um texto por semana. Portanto, está relançado o projeto: SEXTA-FEIRA É DIA DE TEXTO. O primeiro deles é o surreal "A aula", com tons de literatura fantástica e palavras voadoras. Aproveitem!

“Nunca estaremos prontos para o desafio de viver. No entanto, uma vez aceita esta máxima, nos tornamos contraditoriamente prontos. Eis a fé do mistério! ” O professor seguia trovejando, ciente de nossa estupefação mesclada com temor a cada frase lançada. Seus ensinamentos não se continham em uma única disciplina. Pelo contrário, transbordavam nos mais diversos campos do conhecimento. Apesar disso, um pobre colega da primeira fileira sofria espasmos sonolentos, atraindo o mestre arguto, ciente da satisfação que geraria em sua plateia hipnotizada. “Levanta-te moribundo! Morfeu te espera à noite, depois que Hipnos te embalar em seus braços de nuvens!” – gritou o professor com os braços abertos, profético. Nesse momento, um desajeitado ser alado entrou pela janela escancarada, esbarrando nas mesas e cadeiras. Ele agarrou o rapaz pelo colarinho e voltou a alçar voo, levando-o para longe. Seu guincho rouco se confundia com a risada histérica de nosso douto algoz, e aos poucos ambos foram desvanecendo, em uníssono, como se emitidos pela mesma fonte.

“Parece que agora tenho a total atenção de vocês, não é mesmo meus jovens pupilos?” – disse o professor sem conter o sorriso. Meia hora era o tempo que restava. Sempre o suficiente para aprendermos mais do que jamais soubéramos antes. Sobre a vida e sobre nós mesmos. Todos os dias pulávamos sem medo no abismo do conhecimento sem fim, sem limites e sem sentido. Todas as noites dormíamos para esquecer de tudo e, tal qual lousa branca, virgem, voltar a ter a pele talhada por saberes enganosamente indeléveis. O professor retomou o seu monólogo febril, de gestos teatrais: “Não se trata de entender o sentido da vida. Somos mais do que isso. Trata-se de ousadia! Quem não ousa, morto está. Aos insolentes, a vida eterna!” Suas palavras ecoaram pela sala e ricochetearam pelas paredes, gerando tumulto entre os alunos. Algumas se partiram em letras, outras perpassaram corpos incautos. Somente quando a última delas escapou pela janela pudemos retomar a atenção à aula, cada vez mais tensos e inquietos.

Um braço se levantou e o silêncio que se seguiu suspendeu o tempo, que pairou pesado sobre nossas cabeças. “Professor, se bem aprendi a lição, ouso pedir para que o senhor se cale.” – proferiu um jovem colega esquálido, tão calmo quanto se pode estar com o coração ainda batendo. O professor soltou um mugido gutural e se avermelhou até irromper pelos olhos uma substância viscosa, fumegante. Ele entrou em erupção. Todos tentaram correr, mas as portas e janelas se fecharam como guilhotinas. A lava preta consumiu todo o corpo que se equilibrava bêbado, até esparramar-se pelo piso de cerâmica amarelada. Imediatamente três mulheres usando aventais laranjas irromperam na sala, empurrando o que restara de nosso mestre com rodos até os ralos verdes de lodo que se encolhiam nos quatro cantos de parede. A luz azulada, que até então se imaginava acesa, foi de fato ligada. Meus colegas e eu fomos escoltados até formarmos uma fila indiana, ao longo de uma linha vermelha. Nós usávamos branco, neutros naquele balde de cores que girava, misturando-as cada vez mais rápido até ser impossível distinguir o dentro do fora, o em cima do embaixo, o certo do errado. Deram-nos pequena pílulas cor de rosa e o curvo se fez linha. Conscientes de mais nada além do presente momento, seguimos para nossos quartos pálidos para mais uma noite de insônia e branquidão, à espera da aula do dia seguinte.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Smashing Pumpkins em Brasília - 2015

Billy Corgan no palco em Brasília
Os Smashing Pumpkins são um assunto recorrente neste blog. O som deles é uma espécie de som do útero para mim. Quando quero o conforto do conhecido, do caminho pisado ou da camiseta surrada, são as distorcidas guitarras aéreas dos Pumpkins que costumo ouvir. Os tempos são outros, é claro. Apenas Billy Corgan permaneceu na banda ao longo das décadas, bombardeadas pelo pop. Ele se tornou a própria banda, resistindo às intempéries do mundo musical e envelhecendo estoicamente, às vezes ranzinza. Musicalmente, ele continua em forma. Fisicamente, ele está cada vez mais parecido com uma mistura de Homer Simpson com o Geléia.

Às vezes passo meses sem procurar notícias ou ouvir músicas dos Pumpkins. Esperança de assistir um show deles há tempos eu tinha eliminado. Porém, no começo desse ano, ainda morando em Brasília, resolvi digitar o nome deles no Google, para ver quando seria a apresentação deles no Lollapalloza. Eis que surge uma surpresa inimaginável. Eles viriam para Brasília, numa espécie de side-show em relação ao evento principal. Mal pude acreditar. Nunca fui fã de festivais como o local para ver uma banda em específico. Eles servem mais para quem quer conhecer novos sons no modo randômico, ou escutar despretensiosamente alguma banda conhecida. E agora eu teria um show exclusivo dos Pumpkins, a poucos quilômetros de casa. Fiquei imaginando o quão miserável eu seria se ficasse sabendo do show apenas após ele ter ocorrido – algo nada difícil de acontecer dado o meu alienamento atual dos meios de comunicação.

Dia 27 de março, lá estava eu. Após tentar convencer meu irmão a pegar um avião para Brasília em vão, fui só à experiência sonora. Para um purista da música como eu, não há nada de errado em ir a shows no modo solitário. Pelo contrário, às vezes amplifica-se a imersão (papo esotérico, eu sei, eu sei...). Ao chegar lá havia poucas pessoas sentadas junto ao palco. Entre eles havia um casal de mineiros que moravam há pouco tempo em Brasília. Eles eram fãs ardorosos e tinham feitos camisetas especialmente para o show. Tinham ainda uma bandeira do Brasil com uma silhueta de Corgan tocando guitarra no meio, a qual planejavam entregar para o sisudo frontman (no meio do show vi ela ser lançada sem êxito em acertar o alvo, apenas para ser recolhida pelo staff).

O show de abertura foi de uma banda nova, ao menos para mim. A Gentle Giants tocou empolgada apesar do público morno, e suas músicas se não eram excepcionais também não eram ruins. Uma mulher com camiseta da banda grudou na grade próxima ao palco e cantou todas as músicas em transe como se estivesse diante do Beatles na década de 60. Gosto definitivamente não se discute. No intervalo comprei uma água e fiquei próximo ao lado do palco reservado para o Jeff Schroeder – o atual guitarrista japa ninja dos Pumpkins. À minha frente apenas o pessoal da grade, que não saia de lá desde horas antes do show e que com certeza deviam ter sondas para coleta de urina por baixo das roupas.

A música começou com uma lufada de ar vinda dos alto-falantes que despejaram aquela distorção velha conhecida minha. Felizmente, o setlist não foi uma burocrática sequência de hits, do tipo “quero agradar a todos e não arriscar nada”, incluindo, por exemplo, uma psicodélica versão de Glass and the Ghost Children. Lembro que em dado momento eu gritava junto com os empolgados goianos – amigos instantâneos típicos de show – balançando a cabeça ao ritmo dos riffs pesados e de ter ficado me questionando como Corgan fazia para não ficar rouco após a primeira música da noite. Sua raiva parecia artisticamente controlada, liberada em urros como o da música United States, acompanhado de uma névoa d’água, para em seguida lançar ao ar delicadas notas de guitarra. Era o velho jogo dos extremos, minha característica favorita do som deles.

No mais, falar pormenorizadamente do show seria ficar pisoteando adjetivos, discorrendo sobre pensamentos que talvez não façam sentido para muitas outras pessoas. Só posso dizer que saí de lá com a alma lavada, como se tivesse cumprido um objetivo de vida. Talvez fosse uma página a ser virada, afinal todos nós seguimos adiante. Alguns anos à frente, quando o meu filho ouvir aquele som outrora moderno – para ele jurássico –, contarei para ele como foi estar lá.

ps.: post "antes tarde do que nunca"


Smashing Pumpkins em ação


Billy Corgan assinando uma cópia do seu livro de poesias

Setlist - Brasília, 27 de março de 2015, NET Live Brasília

Cherub Rock
Tonight, Tonight
Ava Adore
Being Beige
Drum + Fife
Glass and the Ghost Children
Stand Inside Your Love
1979
Pale Horse
Monuments
Drown
Disarm
One and All (We Are)
United States
Bullet With Butterfly Wings
Bis: Today (acústico)