terça-feira, 12 de agosto de 2014

Xangai, China – Relato de Viagem (parte 1)



Quando viajamos para o exterior, tendemos a nos sentir estranhos no ninho, como uma peça que não pertence ao quebra-cabeça. Ou pelo menos assim costumava ser, antes da globalização e sua pasteurização que nos torna cada vez mais parecidos (uns diriam menos interessantes). Ao descobrir que conheceria a China, pensei ser a oportunidade perfeita de sentir novamente aquela sensação de não-pertencimento. Por um lado, foi exatamente assim que me senti. Por outro, pude perceber que mesmo com onze horas de fuso que nos separam e milênios de história distinta, ainda temos muito em comum.

Tudo começou com um artigo sobre pontes escrito junto com três colegas do trabalho e um despretensioso envio para uma conferência internacional em Xangai, na China. Vários meses depois e com muito poder de convencimento, fomos eu e meu chefe imediato (e meu amigo também) apresentar o trabalho. Foram dois vôos de mais de dez horas de duração, intercalados por uma escala de nove horas em Paris (em breve um post sobre esse city-tour expresso). Dá tempo de assistir filmes e mais filmes, esquecer o primeiro e assistir de novo se você quiser. O tempo perde sua referência quando se está “jantando” e o sol começa a nascer de novo. Aliás, as refeições da Air France colocavam no chinelo diversos pseudo-restaurantes chiques que vemos por aí.

Em Xangai, saímos do aeroporto utilizando o Maglev, que atinge mais de 300km/h. Em oito minutos estávamos na cidade, a leste do rio Pudong que a corta no meio. Custa 50 yuans a viagem, ou 80 ida e volta, se houver menos de uma semana de intervalo. Já na estação final e ainda com malas, decidimos pegar um táxi. Já havia me informado com o hotel que o táxi custaria em torno de 60 yuans, mas o taxista que parecia não compreender muito bem inglês colocou nossas malas em seu carro primeiro, para em seguida nos dizer que cobrava 300. Retiramos nossas malas e voltamos para pegar o metrô, enquanto o taxista tentava negociar em vão, num surto de aprendizado de inglês. O metrô era um rio de gente subterrâneo. Quando as portas abrem, começa um embate entre quem quer sair e quem quer entrar. Mais tarde aprenderia que o mesmo ocorre em elevadores. De qualquer maneira, pagamos apenas 4 yuans e descemos na bonita Huahuai Road, bem próximo ao hotel Jin Jiang Tower.

Trem Maglev, em Xangai
Refeitos de um dia e meio sem banho e zuretas com o fuso, saímos para o reconhecimento da área e para jantar. Descobri-me analfabeto nas ruas chinesas, em que apenas os grandes anúncios das multinacionais – as mesmas que nos pasteurizam – são apresentados também em inglês. A Copa do Mundo estava em todo lugar, com Messis e Cristianos Ronaldos em grandes outdoors a nos vigiar. O Brasil estava em evidência, com camisas verde e amarelas e bonecos do Neymar e David Luiz. Ainda não havia ocorrido a fatídica partida que apagaria nosso brilho. Por falar em brilho, os chineses adoram luzes. Muitas, fortes e coloridas. Andar pelas ruas é como entrar num pinball, reluzente e barulhento. E olha que era domingo à noite, quando no Brasil estariam todos recolhidos, ouvindo a depressiva abertura do Fantástico. Terminamos na rua atrás do hotel, a Changle Road, em uma lanchonete tipicamente chinesa onde éramos os únicos ocidentais. Começava minha experiência gastronômica chinesa. Descobri a duras penas que a comida chinesa que temos no Brasil não tem nada de chinesa. Ela é brasileira mesmo.

"Lost in translation"
Jantei esse frango atropelado da foto abaixo, enquanto assistia ao canal de TV que passava Copa do Mundo vinte e quatro horas por dia. Os comentaristas eram muito empolgados e faziam observações perspicazes que não captávamos. Os atendentes da lanchonete não falavam nada de inglês e apenas sorriam quando não entendiam nossos pedidos. Com ajuda de cervejas Guiness naturais (eles não servem cerveja gelada em Xangai) e do molho, comi o suficiente para encarar um sono restaurador.

Da série: não era bonito e também não era bom

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Faithless



Recentemente terminei de ler pela segunda vez o livro “Ghost Rider”, do Neil Peart. Mais conhecido pela bateria insana que ele toca no Rush, ele também escreve, e muito bem. A história gira em torno da tragédia familiar que ele viveu no final dos anos 90. Sua filha única morre em um acidente de carro, ainda adolescente. Um ano depois, sua esposa morre de câncer, contraído por puro desgosto. Totalmente sem rumo e tomado por pensamentos sombrios, Peart resolve se colocar em movimento. Ele percorre dezenas de milhares de quilômetros em sua moto, passando por lugares fantásticos do Canadá, EUA e México, e até uma rápida passagem por Belize.

Quando imerso no mundo, rodeado pela natureza, ele parece anestesiado. Mas basta interromper sua vida errante para se perder em labirintos depressivos. Sente-se culpado quando parece esquecer, ainda que momentaneamente, de sua filha e esposa. Ainda assim, o livro tem momentos engraçados, como quando ele resolve decorar sua casa com uma moto no meio da sala e quadros tomando todas as paredes, em um momento de rebeldia masculina outrora contida, ou quando ele monta tocaia para acertar um esquilo que roubava a comida dos passarinhos com sua arma d água.

Em geral, o livro segue como um diário de viagens. Fatos, lugares, museus, paisagens, ele segue registrando mecanicamente, evitando o quanto pode pensar em sua vida passada ou futura. Somente o presente parece importar. Descobre jóias como uma pequena cidade de Utah, chamada Moab, onde conhece os livros do excêntrico Edward Abbey e suas histórias do deserto. Aliás, os livros que ele vai lendo ao longo do caminho norteiam a narrativa também. Se não está guiando sua moto, ele está lendo. Deixar espaço para o ócio e pensamentos funestos jamais. O livro também é formado por muitas de suas cartas a amigos, principalmente para Brutus, antigo companheiro de viagens que é preso durante a jornada de Peart.

Por fim, ele parece achar seu caminho para fora do turbilhão. Não sem carregar marcas para o resto de sua vida. Mas acaba por encontrar um novo amor e o retorno à música, que não é só o seu trabalho, mas a arte que ele domina e o cano de escape para suas emoções.

Só recentemente ouvi com mais atenção a um dos álbuns mais recentes do Rush, o Snake and Arrows. Dentre as músicas chamou-me a atenção Faithless, cuja letra segue abaixo. Como os penhascos juntos ao oceano, ele continua resistindo silenciosamente.

Faithless

I've got my own moral compass to steer by
A guiding star beats a spirit in the sky
And all the preaching voices -
Empty vessels of dreams so loud
As they move among the crowd
Fools and thieves are well disguised
In the temple and market place

Like a stone in the river
Against the floods of spring
I will quietly resist

Like the willows in the wind
Or the cliffs along the ocean
I will quietly resist

I don't have faith in faith
I don't believe in belief
You can call me faithless
I still cling to hope
And I believe in love
And that's faith enough for me

I've got my own spirit level for balance
To tell if my choice is leaning up or down
And all the shouting voices
Try to throw me off my course
Some by sermon, some by force
Fools and thieves are dangerous
In the temple and market place

Like a forest bows to winter
Beneath the deep white silence
I will quietly resist

Like a flower in the desert
That only blooms at night
I will quietly resist

sexta-feira, 11 de abril de 2014

De frente para o mar



“De frente para o mar”. A frase ainda ecoava em meus pensamentos, meses depois de ter visto aquele anúncio. Como tantos outros, teria passado completamente despercebido; não fosse por aquela frase, maltratada, desgastada pelo uso intenso, quase vulgar, e ainda assim tão atraente. Por conta dela eu entrei na agência de turismo e quase duas horas depois de uma ladainha maquinal, treinada à exaustão em cursos de venda agressiva, comprei o pacote que prometia praia, bucolismo e paz interior. O único item que eles poderiam cumprir à risca era o primeiro, mas ainda assim resolvi arriscar.

Anos se passaram sem que eu usasse a minha velha mala surrada. Eu a limpei, separei as roupas mais confortáveis que possuo e chequei os pneus do carro. No dia seguinte, após dirigir por mais de mil quilômetros quase sem descanso, aportei no velho hotel que havia visto apenas nas fotos caprichadas do anúncio. Isolado sobre um promontório, carente de reformas e castigado pelo vento, ele só não desapontava na vista que fornecia do mar. Após me registrar fui levado ao último andar. Ocupei um quarto com varanda, cujo piso de madeira rangia quase inaudível, se misturando ao som do quebrar das ondas. Lá de cima pude ver algumas poucas casas que se estendiam na enseada, um casal que passeava de mãos dadas na praia e pássaros que davam rasantes na água de um azul límpido. Pintaria um quadro daquela paisagem se tivesse o talento necessário.

Senti-me como naqueles filmes em que escritores solitários, incompreendidos pelo seu tempo, vagueiam por praias desertas em busca de inspiração. Com o sol indo descansar por trás do horizonte, puxei um bloco de notas da mala e abri uma garrafa de vinho que havia trazido especialmente para a ocasião. Os primeiros goles me esquentaram as orelhas. Mais confiante, pude então encarar a folha de papel em branco. Apenas uma moto e um velho jipe estavam estacionados na garagem do hotel quando eu cheguei. Era estranha a sensação de estar em um lugar tão isolado, com pessoas que eu não fazia ideia de quem poderiam ser. O único funcionário do hotel que eu tinha visto até então fora o recepcionista, que também me ajudara com as malas.

Distrações à parte, tomei outro gole diretamente do gargalo e desviei os olhos da lua crescente para o meu bloco de papel. Bastava uma faísca de ideia para me colocar em curso. O ambiente, agora quase fantasmagórico, faria o restante do texto fluir como se estivesse psicografando. Levantei-me da cadeira e me espreguicei enquanto inspirava o ar morno. Só então pude ver um longínquo vulto que deslizava sobre as águas rasas, em esvoaçantes vestes brancas. Meus pelos se eriçaram e imediatamente tomei a garrafa em minhas mãos. Dei um profundo gole que – esperava eu – faria desvanecer percepções ilusórias de minha turva vista. Um estado inicial de pânico me invadia. Inclinei-me sobre o parapeito para entender melhor o que exatamente se passava lá embaixo. O corpo magro e esguio de uma mulher pontuava as finas vestes. Seu rosto sombreado por um capuz permanecia incógnito. No mais, o silêncio humano diante da ruidosa natureza marinha desumanizava tudo à minha volta.

De repente, o vulto feminino virou seu rosto para cima, olhando-me diretamente nos olhos. Apesar da distância pude enxergar sua face afilada, cujos globos oculares vazios pareciam me engolir como dois buracos negros. Quase despenquei lá de cima, tomado pelo susto. Sem dar as costas para a varanda, voltei para o quarto tropeçando em minha mala puída e derrubando abajur e cinzeiro de cima da cômoda. Sem saber o que fazer, o primeiro instinto foi descer correndo as escadas em busca de companhia. Na recepção não havia ninguém. A porta escancarada denotava fuga. Corri até a entrada do hotel e me deparei com o estacionamento vazio. Apenas os rastros no caminho pedregulhoso indicavam a passagem do jipe e da moto que eu vira mais cedo. Nem mesmo meu carro estava lá.

Vi-me só. Tão só quanto um estrangeiro em meio à multidão. Impotente frente à situação, sentei-me e esperei. O mundo seguiria seu rumo, sem tomar conhecimento de minha existência. Restava encarar aquele momento com a maior lucidez possível, sem se entregar à tentadora insanidade. Se era assim o misterioso fim, que fosse. Segui sendo matéria e pensamento, até o último suspiro.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O chapéu de feltro



Todos os dias eu olhava pela janela à procura do inusitado. “Será que hoje chove granizo?” – eu costumava pensar, para logo depois me sentir culpado pelos danos que seriam causados em troca da minha quebra de monotonia. As mudanças cada vez mais rápidas do mundo não eram rápidas o suficiente para reordenar a lógica humana. Pelo menos não enquanto eu estivesse vivo. Ao mesmo tempo, pensava que não era necessária uma catástrofe mundial para virar o meu pequeno mundo de cabeça para baixo. Bastava algo diferente acontecer comigo. Foi quando resolvi comer comida chinesa, algo que não fazia há tempos. Ao terminar de sorver o último macarrão do prato, rasguei a pequena embalagem que acompanhava os talheres. Um biscoito da sorte. Singela invenção humana (e mais uma dos chineses) que mexe com um dos mais complexos sentimentos humanos: a esperança. Quebrei o biscoito e lá estavam seis números: 11 – 24 – 30 – 35 – 44 – 54.

As chances de acertar os seis números da mega-sena é de uma em cinquenta milhões. Mas isso nunca impediu as pessoas de jogarem e muito menos de ficarem ricas. Aqueles seis números nada tinham de particular. Por isso mesmo pareciam tão passíveis de serem os números vencedores frente aos meus olhos famintos. Passei por uma casa lotérica – algo que não fazia desde a infância – e esperei longamente em uma fila que serpenteava pela calçada. Faria apenas um jogo; não precisava de mais do que aqueles seis números se o destino me tivesse escolhido. Bastava esperar. Porém, o sol brilhava impertinente sobre minha cabeça. Uma gota de suor descia lentamente pelas minhas costas e não havia perspectiva da fila andar. Senti minhas orelhas esquentarem e juro que se um árabe atravessasse meu caminho naquele momento eu atirava. Mas não tinha arma, nem árabe. Deixei a fila para trás e peguei o ônibus para casa. O jogo ficaria para depois.

***

Três dias mais tarde vejo uma notícia no jornal: apenas um jogador acertara os seis números. Ele era da minha cidade e ainda não havia ido retirar o prêmio. Cabe esclarecer que moro em uma pequena cidade do interior, com não mais do que dez mil habitantes. Logo todos estavam a comentar o assunto, imaginando quem seria o misterioso ganhador que provavelmente não queria causar estardalhaço. Já eu me pus a pensar que o raio da sorte desviara levemente seu rumo, uma vez que eu havia sido vencido pelo sol. Levei o jornal comigo até o meu apartamento e enquanto esperava o elevador meus olhos correram a matéria mais uma vez. No último parágrafo uma sequência de números explodiu na minha cara, causando uma tontura instantânea: 11 – 24 – 30 – 35 – 44 – 54.

***

Meses depois eu ainda tentava entender o ocorrido. Como seria possível tamanha coincidência? Na mesma cidade alguém havia escolhido exatamente os mesmos números da tirinha de papel que ainda me assombrava, largada sobre a bancada da cozinha. Pior do que isso. Por que eu não havia esperado sob o maldito sol naquele dia? Pelo menos teria direito à metade da fortuna. Antes tivesse eu sido condenado à prisão, como Meursault, do que condenado à tortura psicológica, inescapável até em sonhos.

Na cidade só se comentava sobre o mistério do ganhador da mega-sena. Faltava apenas um dia para vencer o prazo de retirada do prêmio. Todos os olhos se fixavam no horizonte, do qual se esperava surgir, em meio aos raios do sol poente, um vulto de braço erguido, bilhete em mãos, triunfante. Eu, sentado no bar, afogava meus pensamentos que giravam demoniacamente. Que inferno! Já que era assim, beberia até que se esvaísse o último deles, exilados para todo o sempre.

Deitado sobre a mesa, inconsciente, o bar foi esvaziando. Finalmente, fui recolhido pelo garçom que, junto com um vizinho meu, me levou até o meu apartamento. Completamente desnorteado, com a cama a girar sobre mares e céus imaginários, sonhei o último dos pensamentos que me atormentavam. Um dia após o prazo de retirada do prêmio se esgotar, eu era chamado à casa lotérica. O seu dono, intrigado pelo não comparecimento do ganhador, resolvera rever todas as horas de gravação de sua câmera de segurança daquela fatídica semana do jogo. Apenas parte da fila era visível. Um homem de chapéu de feltro barato e óculos escuros entrava e saia repetidamente do estabelecimento, perturbando os outros clientes. Até que um deles perde a paciência e cede o seu lugar na fila. O homem de chapéu paga o seu jogo e sai apressadamente, tomado por pequenos espasmos.

Por que eu estaria sonhando aquilo? Seria mais um truque perverso da minha mente? Acordei com uma enorme dor de cabeça, a boca ainda seca e os olhos inchados. Tateei o chão com os pés a procura das sandálias e vi que a janela do meu quarto estava aberta. As cortinas puídas dançavam suaves, embaladas por um gélido vento matinal. Perto da janela, sobre uma cadeira carcomida pelo tempo, um objeto escuro jazia na penumbra. Levantei sofregamente para fechar a janela e só então consegui ver melhor o objeto. Reconheci o chapéu de feltro surrado. Impávido, desolador e só.