
Um lampejo de criatividade é o bastante para conceber uma obra de arte. Pelo menos tem gente que pensa assim. Ou pelo menos eu acho que tem gente que pensa assim. Vez por outra um desses roteiristas de filme tem uma ideia brilhante (na verdade, nem precisa ser tão brilhante, pode ser assim um fósforo aceso) para uma cena ou um determinado diálogo e pensa: “Puxa, acabei de vislumbrar o Olimpo das seqüências de ação, agora só resta inventar o resto do filme para se adequar a essa cena que eu quero fazer...” Pronto, está preparado o caminho para mais uma bomba do mercado cinematográfico.
Sim, eu fui assistir Wolverine. O personagem é bacana, o ator que o interpreta “fits the character”, e a sacada de centrar um filme inteiro naquele Zé do Caixão mutante tinha tudo para dar certo. Mas como nem tudo são flores, segue a conversa travada entre os roteiristas do filme durante o “brainstorm” que eles tiveram na sala de reuniões.
(Roteirista Nerd 1): Sabe o que ia ficar massa? O Wolverine sendo perseguido numa moto, estilo retrô, de jaqueta de couro e tal, com um helicóptero atrás mandando bala na tundra canadense!
(Roteirista Nerd 2): Uau, puta ideia véio. Agora basta saber como fazer pra ele arranjar uma dessas motos depois de ter sofrido uma aplicação de "adamantium" no esqueleto e ter saído correndo nú da estação ultra-secreta do governo que fica no campo.
(Roteirista Nerd 1): Já sei, já sei! Ele encontra uma fazenda onde mora um casal de tiozinhos que tinha um filho que foi morto, que se perdeu ou que viajou, sei lá. Enfim, mas eles dão janta, um lugar pra dormir, a jaqueta, a moto e ainda levam dois balaços no final, pra chocar mesmo brother!
(Roteirista Nerd 2): Demais véio, demais! Agora me ajuda com essa aqui ó... Tipo, a gente tem que explicar de onde surgiu o nome do cara, tá ligado? Wolverine... Afinal, é “X-men – Origins”. To bolando uma idéia aqui baseada numa lenda com umas paradas indígenas no meio e um lance lupino, sacou?
(Roteirista Nerd 1): Lupino...pode crer. Isso aí rola!
(Roteirista Nerd 2): Então, o lance ficava mais ou menos assim. Na hora que a mina sexy, que bastou tocar no cara faz o cara fazer tudo o que ela quer, estiver dando uns amassos com o barba negra na cabana perdida no meio da Canadá, do nada ela vai e conta a parada da lenda lupina. A gente enxerta uns bagulhos lunares também, pois sabe que lobo e lua né...? Hum? Sacou?
(Roteirista Nerd 1): Só... Pronto mermão, com essas duas cenas a gente tem um sucesso! E o resto, como a gente faz?
(Roteirista Nerd 2): O resto a gente não complica brother, que isso aqui não é filme cabeça, esses bagulhos de arte e tals. O lance aqui é direto, os caras querem ver os manos póu, e as minas pá! Então a gente faz um esquema de trauma, tipo algo que justifique a fúria dele. Tem que ter um cara do governo, tipo militar, que é mau bagarai, daqueles que até o cuspe é ácido, mas que também tem um trauma ou algo que justifique sua aparente lunacidade...e... brother, sacou aí? Lunacidade? Tudo se encaixa né?? Os caras antigamente achavam que a lua que deixava os malucos doidos e tal...
(Roteirista Nerd 1): Concentra na história pô...
(Roteirista Nerd 2): É mermo, foi mal. Então, aí também pode ter um lance que é meio amizade com o dente de sabre, mas que ele vai e descamba pro mau, mas no final eles se ajudam e tal, daqueles pra fazer chorar mermo sabe? Ah...e pro filme não ficar tenso demais né, pensei em falar com o pessoal do núcleo cômico pra dar uma caprichada. Algo no estilo Vovózona tá ligado? Quem sabe o Eddie Murphy não topa fazer uma pontinha?
(Roteirista Nerd 1): É, essas partes complementares a gente deixa pro estagiário brother. O nosso negócio aqui é criatividade. Inspiração. O mote do filme que é a moto e a lenda pro nome Wolverine fomos nós que concebemos. Arte pura! O resto é baba!
Depois disso foi só convencer o produtor do filme de que valia a pena gastar milhões nessa história e esperar que gente como eu fosse assisti-la. Parece que eles estavam certos!