quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Xangai, China - Relato de Viagem (Parte 2)



Aproveitamos a manhã livre do primeiro dia e fomos conhecer um pouco de Xangai. Saímos a pé do hotel em direção à Nanjing Road. No caminho, inúmeras construções, viadutos que se entrelaçavam freneticamente e pessoas brotando das calçadas davam o tom da metrópole chinesa moderna. O calor se tornava ainda maior dado o enclausuramento em meio aos prédios altos. Demos a volta por dentro de um parque que funcionava como uma ilha de tranqüilidade. Idosos chineses se movimentavam lentamente, em exercícios meditativos. Uma vez na Nanjing Road começa o bombardeio de vendedores e ambulantes, que apareciam deslizando em duas rodinhas presas aos calçados, oferecendo produtos de marcas famosas na versão chinesa. Há poucos ocidentais caminhando num dia de semana em Xangai e éramos facilmente identificados em meio à multidão.

A Nanjing Road pouco difere de calçadões mundo afora, com lojas globalizadas. São poucas as lojas tipicamente chinesas que conseguiram se manter naquele point. No entanto, basta entrar em uma das vielas transversais para dar de cara com o autêntico comércio chinês, repleto de cerâmicas, espadas samurai ou quinquilharias. Somos transportados para outra cidade, a Xangai de verdade que nem todo turista quer ver.

Nanjing Road - o Lado A de Xangai

Por trás da Nanjing Road - o Lado B que nem todo mundo escuta
The Bund
Continuamos caminhando em direção ao The Bund, a margem do rio que corta Xangai e de onde se vê a famosa skyline repleta de prédios futuristas. Pouco antes de chegar lá, fui abordado por uma chinesinha simpática que me pediu para tirar uma foto dela e de sua amiga, em frente a um prédio qualquer. Atendi prontamente e elas pediram outra foto. Em meio à multidão não consegui entender bem o que elas pretendiam registrar ali, mas pensei se tratar apenas de duas inocentes colegiais chinesas. Elas puxaram papo dizendo ser de uma pequena cidade do interior da China e que era a primeira vez delas na cidade grande. Gostavam de conversar com estrangeiros para treinar o inglês. Depois perguntaram se gostaríamos de acompanhá-las para tomar chá. Agradeci e disse que estávamos com o tempo contado e que queríamos conhecer um pouco de Xangai. Elas insistiram dizendo que era tomando chá que se fazia amizade na China. Edimarques fez sinal que não com a cabeça, pois tinha lido antes no Brasil sobre o golpe do chá. Elas insistiam em tomar chá em uma loja específica, onde provavelmente o dono nos cobraria um valor absurdo. Frente à situação, e sem ter como questionar, turistas acabam pagando caro por um chá comum.

Depois de dispensar nossas amigas do chá, chegamos ao The Bund. Uma estátua de Mao se destaca junto ao muro florido. A vista é realmente impressionante. De um lado o distrito moderno, com arranha-céus. Do outro, as fachadas europeias de prédios mais antigos. Só não passamos mais tempo porque o sol nos castigava e não havia sombra para se abrigar. Voltamos a pé, ziguezagueando por ruas a esmo. Paramos em uma esquina onde havia dois restaurantes. Pelo público jovem e pelas mesas de fórmica era alguma rede chinesa de pratos executivos estilo fast food. Sem cardápio em inglês escolhemos pela foto um macarrão com bife aparentemente inofensivo. O que veio foi um ensopado quente e apimentado, com macarrão e carne dentro. Acompanhava um prato menor com algas. Recebemos os usuais chopsticks e uma colher. Após alguns minutos de luta pedimos talheres, mas eles não tinham ou não entendiam o que queríamos. O calor,  que já nos queimava a pele, agora nos cozinhava por dentro. Suando em bicas pedimos uma cerveja japonesa. Ela veio natural e os copos quentes, recém lavados. Só nos restou rir da situação e continuar suando. Lá pela metade do prato a garçonete veio em nosso socorro com garfos que eles deviam ter perdido há tempos. Saindo do almoço foi impossível resistir ao ar condicionado e o sorvete do McDonalds na esquina em frente.

À noite, depois da recepção que marcou o início da conferência, entabulamos conversa com um polonês-canadense movido a uísque. O assunto foi de pontes a futebol. Quando chegou no sentido da vida decidimos ir dormir e recuperar as energias. Na madrugada seguinte haveria o jogo do Brasil pela semi-final da copa e eu já tinha colocado o alarme para a partida.

O que posso dizer sobre ter assistido ao trágico jogo do outro lado do mundo? Foi triste também, mas com pequenos requintes de crueldade. Acordei desorientado pelo fuso e pelo lugar. Resolvemos descer até o lobby do hotel para ver se havia alguma alma acordada a fim de torcer. Apenas um funcionário do bar dormia recostado num sofá. Voltamos ao quarto e assistimos o Brasil ser massacrado enquanto comentávamos o jogo pelo whatsapp com os amigos distantes. Impossível não notar os sorrisos de canto de boca nos demais hóspedes durante o café da manhã. Durante a conferência, todos aproveitavam para fazer piadinhas com o Brasil. É... faz parte do jogo.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O que não foi dito



 
Faz muito tempo que não paro tudo para sentar e ouvir música. Continuo sem fazê-lo. Mas hoje pela manhã, a caminho da creche e do trabalho, me perdi entre sons e memórias ao ouvir o novo álbum do Pink Floyd – The Endless River. Memórias sim, apesar de estar ouvindo pela primeira vez, pois a assinatura deles é visível em cada nota, na cadência e até mesmo no silêncio. Aliás, o não dito é o que mais se destaca nesse novo trabalho. Assim como um Albert Camus consegue resumir na primeira frase de O Estrangeiro toda a essência de Mersault e da história que estava por ser contada, o Pink Floyd resume o que não pôde ser dito em músicas instrumentais, mas altamente sensoriais, em títulos curtos e cheios de significado. Things left unsaid, Sum, Unsung, The lost art of conversation, Autumn´ 68, Allons-y, Calling e Surfacing, para citar algumas músicas. Por fim, eles quebram o silêncio com Louder than words, a única que não é instrumental.


No banco de trás do carro, Daniel (meu filho) se manteve estranhamente calmo o percurso inteiro. Sem emitir um grunhido sequer ou jogar longe o seu gatinho de pelúcia psicodélico de olhos esbugalhados. Quando ouvimos música ele normalmente balança a cabeça e clama por contato visual o tempo todo, agitando o que tiver à mão. Dessa vez ele olhava contemplativo para fora da janela, de olhos semicerrados, a alisar o gatinho. Acho que a seta envenenada lançada pela guitarra de Gilmour já o tinha atingido. Bem-vindo ao clube filho!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Xangai, China – Relato de Viagem (parte 1)



Quando viajamos para o exterior, tendemos a nos sentir estranhos no ninho, como uma peça que não pertence ao quebra-cabeça. Ou pelo menos assim costumava ser, antes da globalização e sua pasteurização que nos torna cada vez mais parecidos (uns diriam menos interessantes). Ao descobrir que conheceria a China, pensei ser a oportunidade perfeita de sentir novamente aquela sensação de não-pertencimento. Por um lado, foi exatamente assim que me senti. Por outro, pude perceber que mesmo com onze horas de fuso que nos separam e milênios de história distinta, ainda temos muito em comum.

Tudo começou com um artigo sobre pontes escrito junto com três colegas do trabalho e um despretensioso envio para uma conferência internacional em Xangai, na China. Vários meses depois e com muito poder de convencimento, fomos eu e meu chefe imediato (e meu amigo também) apresentar o trabalho. Foram dois vôos de mais de dez horas de duração, intercalados por uma escala de nove horas em Paris (em breve um post sobre esse city-tour expresso). Dá tempo de assistir filmes e mais filmes, esquecer o primeiro e assistir de novo se você quiser. O tempo perde sua referência quando se está “jantando” e o sol começa a nascer de novo. Aliás, as refeições da Air France colocavam no chinelo diversos pseudo-restaurantes chiques que vemos por aí.

Em Xangai, saímos do aeroporto utilizando o Maglev, que atinge mais de 300km/h. Em oito minutos estávamos na cidade, a leste do rio Pudong que a corta no meio. Custa 50 yuans a viagem, ou 80 ida e volta, se houver menos de uma semana de intervalo. Já na estação final e ainda com malas, decidimos pegar um táxi. Já havia me informado com o hotel que o táxi custaria em torno de 60 yuans, mas o taxista que parecia não compreender muito bem inglês colocou nossas malas em seu carro primeiro, para em seguida nos dizer que cobrava 300. Retiramos nossas malas e voltamos para pegar o metrô, enquanto o taxista tentava negociar em vão, num surto de aprendizado de inglês. O metrô era um rio de gente subterrâneo. Quando as portas abrem, começa um embate entre quem quer sair e quem quer entrar. Mais tarde aprenderia que o mesmo ocorre em elevadores. De qualquer maneira, pagamos apenas 4 yuans e descemos na bonita Huahuai Road, bem próximo ao hotel Jin Jiang Tower.

Trem Maglev, em Xangai
Refeitos de um dia e meio sem banho e zuretas com o fuso, saímos para o reconhecimento da área e para jantar. Descobri-me analfabeto nas ruas chinesas, em que apenas os grandes anúncios das multinacionais – as mesmas que nos pasteurizam – são apresentados também em inglês. A Copa do Mundo estava em todo lugar, com Messis e Cristianos Ronaldos em grandes outdoors a nos vigiar. O Brasil estava em evidência, com camisas verde e amarelas e bonecos do Neymar e David Luiz. Ainda não havia ocorrido a fatídica partida que apagaria nosso brilho. Por falar em brilho, os chineses adoram luzes. Muitas, fortes e coloridas. Andar pelas ruas é como entrar num pinball, reluzente e barulhento. E olha que era domingo à noite, quando no Brasil estariam todos recolhidos, ouvindo a depressiva abertura do Fantástico. Terminamos na rua atrás do hotel, a Changle Road, em uma lanchonete tipicamente chinesa onde éramos os únicos ocidentais. Começava minha experiência gastronômica chinesa. Descobri a duras penas que a comida chinesa que temos no Brasil não tem nada de chinesa. Ela é brasileira mesmo.

"Lost in translation"
Jantei esse frango atropelado da foto abaixo, enquanto assistia ao canal de TV que passava Copa do Mundo vinte e quatro horas por dia. Os comentaristas eram muito empolgados e faziam observações perspicazes que não captávamos. Os atendentes da lanchonete não falavam nada de inglês e apenas sorriam quando não entendiam nossos pedidos. Com ajuda de cervejas Guiness naturais (eles não servem cerveja gelada em Xangai) e do molho, comi o suficiente para encarar um sono restaurador.

Da série: não era bonito e também não era bom

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Faithless



Recentemente terminei de ler pela segunda vez o livro “Ghost Rider”, do Neil Peart. Mais conhecido pela bateria insana que ele toca no Rush, ele também escreve, e muito bem. A história gira em torno da tragédia familiar que ele viveu no final dos anos 90. Sua filha única morre em um acidente de carro, ainda adolescente. Um ano depois, sua esposa morre de câncer, contraído por puro desgosto. Totalmente sem rumo e tomado por pensamentos sombrios, Peart resolve se colocar em movimento. Ele percorre dezenas de milhares de quilômetros em sua moto, passando por lugares fantásticos do Canadá, EUA e México, e até uma rápida passagem por Belize.

Quando imerso no mundo, rodeado pela natureza, ele parece anestesiado. Mas basta interromper sua vida errante para se perder em labirintos depressivos. Sente-se culpado quando parece esquecer, ainda que momentaneamente, de sua filha e esposa. Ainda assim, o livro tem momentos engraçados, como quando ele resolve decorar sua casa com uma moto no meio da sala e quadros tomando todas as paredes, em um momento de rebeldia masculina outrora contida, ou quando ele monta tocaia para acertar um esquilo que roubava a comida dos passarinhos com sua arma d água.

Em geral, o livro segue como um diário de viagens. Fatos, lugares, museus, paisagens, ele segue registrando mecanicamente, evitando o quanto pode pensar em sua vida passada ou futura. Somente o presente parece importar. Descobre jóias como uma pequena cidade de Utah, chamada Moab, onde conhece os livros do excêntrico Edward Abbey e suas histórias do deserto. Aliás, os livros que ele vai lendo ao longo do caminho norteiam a narrativa também. Se não está guiando sua moto, ele está lendo. Deixar espaço para o ócio e pensamentos funestos jamais. O livro também é formado por muitas de suas cartas a amigos, principalmente para Brutus, antigo companheiro de viagens que é preso durante a jornada de Peart.

Por fim, ele parece achar seu caminho para fora do turbilhão. Não sem carregar marcas para o resto de sua vida. Mas acaba por encontrar um novo amor e o retorno à música, que não é só o seu trabalho, mas a arte que ele domina e o cano de escape para suas emoções.

Só recentemente ouvi com mais atenção a um dos álbuns mais recentes do Rush, o Snake and Arrows. Dentre as músicas chamou-me a atenção Faithless, cuja letra segue abaixo. Como os penhascos juntos ao oceano, ele continua resistindo silenciosamente.

Faithless

I've got my own moral compass to steer by
A guiding star beats a spirit in the sky
And all the preaching voices -
Empty vessels of dreams so loud
As they move among the crowd
Fools and thieves are well disguised
In the temple and market place

Like a stone in the river
Against the floods of spring
I will quietly resist

Like the willows in the wind
Or the cliffs along the ocean
I will quietly resist

I don't have faith in faith
I don't believe in belief
You can call me faithless
I still cling to hope
And I believe in love
And that's faith enough for me

I've got my own spirit level for balance
To tell if my choice is leaning up or down
And all the shouting voices
Try to throw me off my course
Some by sermon, some by force
Fools and thieves are dangerous
In the temple and market place

Like a forest bows to winter
Beneath the deep white silence
I will quietly resist

Like a flower in the desert
That only blooms at night
I will quietly resist