O Brasil é um gigante
adormecido. País do futuro. A potência do novo milênio. Clichê, clichê, clichê.
O Brasil será tudo isso, só e somente só, quando eliminarmos a maior praga
desse país: o uso indiscriminado de frases com sujeito indeterminado, seja na teoria
gramatical ou na prática. Seguem alguns exemplos clássicos.
É preciso investir na
educação! País de analfabetos...
Alguém tem que fazer alguma
coisa! Isso é um absurdo!
Vai atrasar e vai custar o
dobro do que estão dizendo. Quer apostar quanto?
Tem que melhorar essa
gestão, tá todo mundo feito barata tonta.
Aliás, esse “tem que...” é o
meu preferido. Inúmeras reuniões de trabalho são conduzidas na base do “tem
que”. “Tem que rever esses valores e refazer essa planilha”. No final das
contas, sai todo mundo satisfeito e confiante de que o sujeito indeterminado
fará as devidas correções. Na reunião seguinte, está todo mundo fulo da vida.
Muda só o tempo verbal. “Tinha que ter sido feita semana passada, agora já
era!”
O mais engraçado – ou mais
triste nesse caso – é que ninguém parece perceber que deixar para “alguém” – ser
indeterminado – fazer, é o mesmo que deixar para ninguém.
Poucos anos atrás troquei a
iniciativa privada pelo serviço público. No começo me sentia como agente
infiltrado em território inimigo. Aos poucos percebi que há pessoas
determinadas a resolver problemas e há pessoas acomodadas, como em todo lugar,
inclusive na iniciativa privada. Porém, ainda me surpreende ouvir pessoas
reclamarem do atendimento de um Detran da vida enquanto o telefone berra ao
lado, solenemente ignorado. Ou quando falam que “o Governo” – de forma
genérica, e não o partido que está no poder – está perdido, não sabe o que
quer. Nós somos o governo, o serviço público!
Dia desses ouvi de Marie,
antes de sair de casa: “Tem que ligar para o cartão de crédito, para perguntar
do seguro”. Sobressaltado perguntei: “Quem tem que ligar? Eu tenho que ligar?
Você vai ligar?” Pelo menos em casa, esse sujeitinho, indeterminado que só ele,
não vai entrar.



