quinta-feira, 9 de julho de 2015

Viagem França 2015 - Parte 3

Entre 01 e 15 de maio de 2015, eu, Marie e Daniel fizemos uma viagem por Paris, onde visitamos meu irmão Flávio, e pelo sul da França, na região da Provença.

07/05/2015

O dia mal nascera e já estávamos nas ruas geladas de Paris, a caminho da Gare de Lyon (estação de trem), com Flávio mais uma vez nos ajudando com malas e carrinho de bebê no sobe e desce do ônibus. Sou fã do sistema de transporte ferroviário europeu, com suas estações amplas e horários assustadoramente exatos. Na Gare de Lyon tinha até um piano à disposição dos viajantes que quisessem demonstrar seu talento. Despedimo-nos temporariamente de Flávio, embarcamos pouco depois das 8 da manhã e relaxamos nos assentos. Daniel até que não deu trabalho e, após lanchar, dormiu no embalo do trem. A paisagem mudou rumo ao sul, com o clima cada vez mais ameno. Três horas depois descemos em Aix en Provence, que seria nossa primeira base. Pegamos o carro que estava reservado na locadora e para minha surpresa ficamos com um Alfa Romeo Giulietta, muito estiloso. Difícil foi colocar a cadeirinha de Daniel! Havíamos comprado um mapa da França para o nosso GPS, mas nem precisava. O carro já vinha com um embutido. Passamos a usar um e outro, conferindo passagens duvidosas. Porém, nem sempre eles entravam em acordo e ficávamos na dúvida até o último segundo. Eu confiava mesmo era nas placas de trânsito.

Ao chegar ao centro da cidade demos de cara com a Cours Mirabeau – principal rua da cidade – fechada para a feira. O nosso hotel (Grand Hotel Negre Coste) ficava no meio da fuzaca e rodopiamos inutilmente por ruelas medievais por mais de uma hora, sem conseguir acessá-lo. O GPS nos alertou diversas vezes que estávamos entrando em zona proibida e ainda tivemos que dar ré após entrarmos em um beco na contramão. Daniel já estava insano de fome e quase largamos o carro para ir a pé. Porém, após restabelecermos a calma familiar dentro do carro, identificamos o estacionamento público mais próximo e paramos por lá para encontrar o hotel. Devidamente instalados saímos andando pela Cours Mirabeau que tem um visual fantástico, ladeada por grandes árvores que mantém as calçadas sombreadas, com esparsas réstias de sol. Além disso, há três fontes e muitos bares e restaurantes. Entramos no primeiro que vimos, que servia massas. O nhoque era horrível, pior do que qualquer comida congelada de supermercado. Serviu para acalmar Daniel, mas não voltamos a pisar nos restaurantes da Cours Mirabeau, que são um pouco turísticos (engana trouxa mesmo) demais.

Fonte na entrada da Cours Mirabeau - Aix en Provence
Dedicamos o resto do dia às ruazinhas internas do centro de Aix en Provence, sempre nas sombras, dadas suas larguras ínfimas. Uma loja interessante vendia sabonetes de todos os cheiros imagináveis, principalmente lavanda, pouco antes da Catedral. Dentro da igreja ouvi um organista solitário encher a nave de sons etéreos, facilmente divinizados. Outro ponto legal de ver foi a Place des Cardeurs, cheia de jovens e bares, banhada pelo sol que se esvaia no horizonte. Daniel brincou com um cachorrinho de madame e logo começou seu ritual de demonstração visceral de fome. Parece que de uma hora para outra se abre um alçapão dentro de seu jovem estômago e todas as garras de vermes e lombrigas passam a clamar por alimento. Dessa vez demos mais sorte e encontramos rapidamente a Maison du Fondue, onde comemos uma das melhores carnes da viagem, acompanhada de deliciosas batatas assadas.

Rua interna de Aix en Provence
Place des Cardeurs banhada pelo sol de fim de tarde
Da série: janelas provençais
08/05/2015

No dia seguinte saímos cedo para Lourmarin, outra pequena cidade provençal encravada no parque Luberon. A ideia era visitar a feira da cidade, que acontece todas as sextas-feiras, e se desse tempo prestar homenagens a Albert Camus. Ele passou o fim de sua vida nessa cidade, onde está enterrado, após morrer em um acidente de carro.

Ao nos aproximarmos do centro percebemos que a feira atraia muita gente, pois havia carros estacionados por todos os lados. Apesar disso, conseguimos um lugar pertinho da rua onde estavam armadas a maioria das barracas. O lugar é muito agradável, de frente para um gramado extenso, com um castelo ao fundo. Os produtos da feira eram os mais variados, mas não encontramos nenhum objeto excepcional. Em compensação, o saquinho de ameixas que comprei continha os frutos mais suculentos que já comi. Daniel aprendeu a palavra ameixa (“amessa!”) rapidamente e não parava de repetir estendendo a mão por mais e mais. No meio do vai e vem de pessoas um cara de boné e camisa do Black Sabbath tocava um instrumento nada convencional, de sons “xilofônicos” e aparência de panela. Talvez tenha sido ele que fez surgir uma chuva forte e passageira que dispersou a multidão em direção aos cafés das ruas internas. Nós esperamos um pouco sob uma das barracas e depois seguimos em direção ao castelo.

Feira em Lourmarin
No caminho há uma fonte estranha, com três rostos de semideuses que cospem água e dos quais pendem cascatas de musgo. Em um banco de praça solitário trocamos mais uma fralda de Daniel ao ar livre (ele já nem se incomodava com o ventinho frio) e subimos a ladeira até o castelo. Em sua lateral havia uma porta que dava para um espaço de exposições temporárias. Um italiano magro e alto expunha solitariamente seus trabalhos de pintura em uma sala úmida de teto baixo, como convém a um castelo. Após batermos um papo rápido ele demonstrou interesse pelo Brasil, pensando que talvez fosse um bom lugar para vender sua arte. Pelo que ele falou, na Europa também vale o ditado de que santo de casa não faz milagre. Não fizemos a visita ao interior do castelo pois teríamos que esperá-lo reabrir após o horário de almoço e devido à impossibilidade de entrar com o carrinho de bebê.

Marie e Daniel se preparando para o pit-stop
Fonte exótica
Rumo ao castelo de Lourmarin
Foto rara: família completa!
Por dentro de Lourmarin
Melhor assim, pois voltamos famintos em busca de comida. Após rodopiarmos pelas bonitas ruas internas de Lourmarin, terminamos em um bistrô da rua principal. O atendimento era provençal clássico: lento ao extremo, mas com uma comida deliciosa. Nosso amigo pão ajudou a segurar Daniel até a chegada dos pratos. Passamos boa parte da tarde relaxando nesse bistrô, amaciados pela brisa e pelo vinho. Quando chegou a hora de ir embora, preferi esquecer a ideia de visitar o túmulo de Camus. Acho que não combinava com o clima ameno do momento. Além do que, dada a dificuldade de achar e a simplicidade de sua lápide, pensei que seria mais sensato respeitar sua discrição e deixá-lo descansar em paz.

De volta a Aix en Provence largamos o carro, dessa vez no estacionamento do hotel (aprendemos a nos guiar pelas ruelas medievais), e saímos para andar. A cidade estava mais calma, com alguns estabelecimentos fechados devido a um feriado nacional. Descemos a Cours Mirabeau e atravessamos Les Allées Provençales – uma espécie de shopping amplo a céu aberto – até chegarmos à Cité du Livre (Cidade do Livro). Infelizmente estava fechada, mas não deixamos de tirar fotos junto aos livros gigantes da fachada. Depois disso ainda caminhamos um pouco mais pelo Les Allées e pelo centro de Aix. No entanto, tudo começou a fechar um pouco mais cedo que de costume, apesar do sol ainda adentrar a noite. Antes que fechassem também, comemos uma pizza em um trailer movimentado em uma esquina com a Cours Mirabeau e buscamos mantimentos no Monoprix (supermercado) vizinho ao hotel. Já no quarto, Daniel ainda arranjou forças para inventar uma brincadeira nova. Ele decidiu arrastar uma cadeira de um lado para o outro, de maneira ininterrupta e determinada, como se se tratasse de um ofício aprendido com esmero ao longo de anos.

Je suis l`étranger
Daniel e o mito de Sísifo

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Viagem França 2015 - Parte 2

Entre 01 e 15 de maio de 2015, eu, Marie e Daniel fizemos uma viagem por Paris, onde visitamos meu irmão Flávio, e pelo sul da França, na região da Provença.

05/05/2015

Nada como um dia após o outro. Depois da febre e do acidente do dedo de Daniel, o sol apareceu, ainda que intercalado por céus turvados e rajadas de ventos enregelantes. Trocamos a programação inicial de parques e bairros mais afastados (Belleville, Bercy, Giverny e Parc de la Villette ficaram para uma próxima viagem) pelas atrações mais centrais, a partir das quais poderíamos retornar rapidamente para casa em caso de febre ou de chuva. Pegamos um ônibus para a Torre Eiffel, dessa vez sem nosso fiel escudeiro Flávio, que tinha compromissos na universidade. Ao descermos no Champ de Mars, o céu estava fechado e fazia muito frio. Mal começamos a caminhar e a luz do sol ultrapassou as nuvens iluminando o ambiente como a um palco de teatro. Os inúmeros chineses que caminhavam juntos aplaudiram o iluminador divino daquela cena. O sol e as nuvens carregadas, o calor e o frio, se revezavam em sua luta eterna. Nós já quase subíamos em direção ao Trocadero quando Daniel acordou de seu casulo (carrinho), se animou com a paisagem e desfilou seu equilíbrio tênue na frente do Rio Sena.

Marie, Daniel e seu dedo "dodói"
Como havia previsão de chuva no meio do dia, a ideia era nos abrigarmos no Aquário de Paris, ao lado do Trocadero. Apesar de o sol haver firmado, mantivemos o plano para ver se Daniel curtiria e aproveitamos para almoçar por lá. Foi uma surpresa vê-lo estupefato, gritando com as mãos para o alto: “peixe, peixe”! Ele ficava impressionado a cada novo paredão de vidro e enfiava a cara para ver de perto peixes coloridos, águas-vivas ou tubarões. Gostou especialmente de nós o termos colocado numa escotilha de vidro que se projeta para dentro do tanque e de meter a mão na água em um aquário aberto, rasinho, que estimula as crianças a tocarem nos peixes. Depois de ele cansar e realizarmos o pit-stop de fralda, pegamos um ônibus (guiados via telefone por Flávio) até o Hotel de Ville, a fim de explorar o bairro do Marais.

Daniel no aquário
Andamos primeiro pela Rue Sante-Croix de la Bretonnerie, cheia de lojas modernosas e em seguida entramos na Rue des Rosiers, talvez a mais legal do bairro. Ela tem um punhado de lojas bacanas, crepes e comidas judaicas (falafel). Marie gostou do restaurante Chez Marianne e eu gostei da fachada de uma pâtisserie judaica, que passa de pai pra filho desde 1946. Em uma esquina inocente há uma placa marcando o lugar de um atentado antissemita, ocorrido em 1982, em que foram mortas 6 pessoas e feridas outras 22. Para nós brasileiros é difícil conceber essa proximidade da Europa com o terrorismo, com o xenofobismo, e com outras aberrações do nosso dito mundo moderno.

A próxima parada foi a Place des Vosges, que já conhecíamos, mas por isso mesmo fazíamos questão de lá voltar. Daniel acordou da sua soneca bem a tempo de brincar. Além das fontes e dos gramados, lá tem escorrego, balanço, gangorra e outros brinquedos com design futurista. Ele fez uns amiguinhos por meio da comunicação universal das crianças e logo estava se esbaldando.

Ao sairmos de lá, jantamos no Ma Bourgogne, bem na esquina da praça. Acertei em cheio no prato: um steak tartare. Depois que aprendi que carne crua, se bem temperada, também pode ser gostosa, tenho arriscado sempre nessa especialidade francesa. Quando estávamos terminando, Daniel fez seu número dois ali mesmo. No banheiro não havia trocador, nem espaço. O jeito foi improvisar em um banco da Place des Vosges: a troca de fralda mais veloz do oeste para escapar do frio. Mais uma dica de Flávio e mais um ônibus depois, estávamos em frente aos Jardins de Luxemburgo. Não resistimos e ainda demos uma volta por lá, onde encontrei um busto do meu mais novo amigo Delacroix e revi a bonita Fontaine de Médicis. Agora sim, a viagem tinha começado.

De novo! (Place de Vosges)

Delacroix nos Jardins de Luxemburgo

06/05/2015

Acordamos um pouco mais tarde e caminhamos pela movimentada Boulevard St. Germain. Lá, fizemos uma parada estratégica para compras de perfume e maquiagem, onde aproveitei para treinar meu francês de ogro. Depois rumamos para o bairro Quartier Latin. Empurramos o carrinho de Daniel ladeira acima até o Panthéon, lotado de andaimes devido à reforma. Apesar da proximidade, o bairro já é bem diferente do St. Germain, com a faixa etária reduzida pelos inúmeros estudantes que zanzam pra lá e pra cá. Daniel acordou faminto do seu sono matinal e paramos em um restaurante grego, despretensioso, na Rue Descartes. O almoço se estendeu por duas horas ou mais, com troca de fralda, boa comida, muito pão e espera para chuva passar. Flávio nos encontrou lá, vindo da faculdade ali perto. Com ele descemos a famosa Rue Mouffetard, onde ele havia morado por uns dias no começo de sua estadia em Paris, em um albergue. A rua tem uma vibe legal, com vários bares, lojas e arte de rua. Fizemos um pit-stop na livraria L’arbre du voyageur, que tem uma seleção muito boa. Com saudades de livros sobre viagens, saí de lá com um exemplar de L’usage du monde, de Nicolas Bouvier, do qual li apenas o começo e já vi que penarei na tradução. Inspirado pelos ares literários, arrastei Marie, Flávio e Daniel até a Rue du Pot de Fer – ruela transversal à Mouffetard – onde George Orwell morou durante as experiências vividas no livro Na pior em Paris e Londres. O livro é muito bom, principalmente a parte de Paris. A ruela hoje é tomada pelas mesas de restaurantes e quase não consegui localizar o número 6 que marca o imóvel que abrigou Orwell.

Arte na Rue Mouffetard
Depois disso caminhamos por ruas calmas, sempre margeadas por pracinhas e parques infantis, até chegarmos próximo da Grande Mesquita de Paris, com seu minarete ornamentado. Por trás dele está o Jardin des Plantes – mais um grande parque urbano, com zoológico e museu de história natural. O lugar é muito agradável, mesmo que seja para fazer o que fomos fazer lá: nada. Logo na entrada demos de cara com uma placa que indicava o prédio em que Lamarck havia morado. Árvores plantadas equidistantes, edificações monumentais, estátuas em meio a jardins, tudo contribuía para a sensação boa de estar em um lugar que mesclava natureza e razão humana. Daniel curtiu seu banho de sol e teve sua fralda trocada em mais um espaço aberto de Paris.

Jardin des Plantes

Daniel solta o verbo
Após pegarmos o ônibus de volta, descemos na praça St. Sulpice. Escapuli rapidamente para dentro da igreja a fim de ver a pintura de Delacroix que aos poucos se esvanece em uma de suas paredes. Há mais de uma pintura na verdade, mas eu queria ver mesmo era a que mostra a luta de Jacó contra o anjo. Além de a pintura ser muito bem feita, tecnicamente falando, achei interessante o comentário de Baudelaire, no livro que eu havia lido: “O homem natural e o homem sobrenatural lutam cada qual segundo sua própria natureza: Jacó curvado como um carneiro, estendendo todos os músculos, enquanto o anjo se presta à luta complacente, calmo e doce”. Desde então, sempre que me vejo curvado de tensão no trabalho, tento ser um pouco menos Jacó.

Detalhe da pintura "Jacó luta com o anjo" - Delacroix, Igreja de St. Sulpice
Flávio tinha recebido a dica de uma amiga francesa de que o restaurante Aux Charpentiers (na Rue Mabillon), pertinho do seu apartamento, era um lugar legal para comer algo tipicamente local. Foi uma das melhores refeições da viagem. Para mim foi a redenção do pato, que eu tinha comido em 2011 e não tinha ficado com uma boa impressão. Marie se deliciou no steak tartare. E Flávio saiu bendizendo a cozinha francesa, que até então ele julgava superestimada.

sábado, 30 de maio de 2015

Viagem França 2015 - Parte 1

Entre 01 e 15 de maio de 2015, eu, Marie e Daniel fizemos uma viagem por Paris, onde visitamos meu irmão Flávio, e pelo sul da França, na região da Provença.

Sempre que viajávamos de férias costumávamos ver casais estrangeiros com filhos pequenos pendurados às costas, ágeis e serelepes, encarando trekkings ou visitando museus. Planejamos fazer o mesmo quando Daniel nascesse, simplificando o que poderia parecer complicado. Talvez seja nosso, do brasileiro, esse desejo de criar uma redoma em volta dos filhos e acabamos por superprotegê-los. Assim, partimos em maio para a França após um check-up com o pediatra e colocarmos na mala os remédios mais usuais.

01/05/2015 e 02/05/2015

O voo de ida pela Air France era direto, Brasília – Paris, e correu tudo tranquilo. Daniel dormiu quase a noite inteira e acordamos, senão revigorados, em estado não deplorável. Flávio já nos esperava no Charles de Gaulle e nos ajudou a pegar o táxi até seu apartamento. Ele deu uma sorte imensa durante seu doutorado-sanduíche e contou com a ajuda de uma amiga de sua professora que lhe recebeu em um apartamento no coração de Paris. A pequena e estreita Rue Guisarde fica no 60 Arrondissement, repleta de bares e restaurantes, com torcedores de futebol e rúgbi em dias de semana. Ao norte está a igreja St. Germain-des-Près e ao sul a igreja St. Sulpice. Metrô, ônibus, supermercados e farmácias, tudo a não mais que duas quadras. Mas estamos na Paris mais antiga, e o prédio tem uma escada sinuosa, paredes e pisos irregulares, luminárias improvisadas, tudo bem retrô, cult, e o escambau, só que de verdade. O apartamento é atulhado de livros e decorado de maneira singular, o que o torna personalíssimo e quase nos permitia sentir a presença da sua proprietária, Irene.



Após nos alojarmos descemos para andar pelo bairro. O almoço tardio foi no Le Mondrian, que não era uma delícia, mas preencheu nossos vazios interiores. Daniel conheceu seu novo melhor amigo: o pão francês. A partir de então ele seria nossa tábua de salvação, mas também motivo de brigas com o nosso esfomeado. No caminho de volta passamos no Carrefour para abastecer a despensa e descansamos o restante do dia – ainda mais longo com o sol presente até às 21h no início do verão europeu.

À noite, Daniel acordou com febre. Após tomar o medicamento voltou a dormir e torcemos para não ser nada de mais.

03/05/2015

No dia seguinte, Paris amanhece com chuva, ainda que leve. Nossa ideia antes da viagem era conhecer lugares abertos, em que Daniel pudesse correr e nós arejarmos as mentes – como os jardins de Monet em Giverny, o Parc de la Villette, etc. Porém, partimos para o plano B e fomos até o Musée Delacroix, na Place Furstenberg, colada na St. Germain-des-Près. Trata-se da casa onde ele morava e do estúdio onde trabalhava, antes de morrer. Tinha lido pouco antes um livro sobre o pintor e foi interessante ver esboços de alguns de seus trabalhos e cópias feitas por outros artistas – suas obras principais estão espalhadas em outros museus e igrejas. Passamos rápido pelas salas internas, pois Daniel já estava com fome e fomos até o jardim para o seu lanche. É um espaço pequeno, mas muito bem cuidado, enclausurado pelas residências e pelo estúdio de Delacroix.

Place Furstenberg

Eu, Marie e Daniel no jardim de Delacroix

Flávio, Marie e Daniel no jardim de Delacroix
Para manter Daniel protegido da chuva e do frio decidimos ir para o Musée D’Orsay. Acho que foi nossa primeira e única incursão subterrânea (metrô) dessa viagem. Depois de penar nas escadarias com o carrinho priorizamos os ônibus, sempre acessíveis e com vista para a cidade. Almoçamos nos arredores, no Solferino, ainda sem mágica por parte da comida francesa. Era o dia do acesso gratuito aos museus e a fila era imensa. Porém, o assunto “prioridade” lá é levado muito a sério e fomos praticamente teletransportados para dentro quando viram que estávamos com o petit Daniel. Como já tínhamos visitado o museu da primeira vez que estivemos em Paris, resolvemos focar na sala do Van Gogh. Era quase impossível admirar algo ali, tamanha a quantidade de gente. O jeito foi rodopiar com Daniel pelo museu, para deixá-lo mais alegre. A sua febre ainda não tinha sido vencida e começamos a considerar a volta para o apartamento. Saímos pela margem do Sena e ao atravessar uma ponte qualquer notei, quase sem querer, que se tratava da Pont Royal, onde ocorre a principal cena de A Queda (Albert Camus) – livro que eu estava acabando de ler, sofregamente, em francês. Nela, o “juiz-penitente” de moral enviesada vê um vulto feminino apoiado ao parapeito, numa noite deserta e chuvosa. Ao passar por ela, ouve um barulho do corpo caindo no rio, seguido por gritos. Ao se voltar, reflete ante à emergência da ação requerida. Com o afastar dos gritos, retoma seu caminho. Indiferença pura, que aos poucos se transmuta em arrependimento.

Pont Royal
De volta ao apartamento tratamos de ligar para o seguro de saúde do cartão de crédito para descobrir quais hospitais poderiam atender Daniel. A febre se tornara mais alta e decidimos partir de imediato para o mais perto dos dois hospitais indicados. Ao chegarmos lá Daniel estava bem sofrido, com febre acima de 39 graus. Para nossa surpresa o Hospital Cochin não tinha pediatria! Apesar disso o atendente foi solícito e rapidamente chamou um táxi e nos ensinou o caminho para o Hospital Necker, especializado em crianças. Ao notarem a gravidade da situação fomos rapidamente atendidos. Os métodos lá são, digamos, bem mais hardcore.  Mas também bem mais diretos e eficazes. Eles mediram a temperatura pelo ânus, coletaram amostra de urina com uma sonda e escavaram a cera dos ouvidos com uma colherzinha. Em minutos descartaram a infecção urinária e diagnosticaram uma otite, provavelmente contraída no avião. Após o início do antibiótico Daniel já demonstrava uma reação, o que nos deixou bem aliviados.

04/05/2015

No outro dia cedo fui sozinho à farmácia comprar os remédios prescritos para Daniel e croissants para o café. A ideia era ficarmos em casa pela manhã e no máximo um passeio pelos Jardins de Luxemburgo à tarde, caso o sol se mantivesse firme. Daniel já estava animado e corria pra lá e pra cá no apartamento. Quando Marie foi fechar uma porta - daquelas pesadas do século passado - ele veio por trás e passou seu dedão no pequeno vão. O resultado foi terrível e a carne foi arrastada sobre a unha que também foi esmagada. O mar não estava para brincadeiras! Depois de passarmos água gelada e gelo, e de tranquilizarmos a mãe (meu irmão é psicólogo), corremos para a farmácia, onde eu havia visto que existia um lugar para fazer curativos. A atendente, mãe de um menino da mesma idade, se contorcia junto com Marie. Juntou gente para acompanhar o drama do brasileirinho e seu dedão. Mas saímos de lá com um OK! Thumbs up!

Ressabiados, almoçamos ali na esquina da Rue Guisarde, no La Grille St. Germain. Daniel ainda estava mais interessado no pão do que no restante das comidas. Flávio estava feliz com seu peixe insosso e eu e Marie descobrimos os prazeres da Panacotta (sobremesa). Depois da soneca de Daniel caminhamos sem pressa até a praça da igreja St. Sulpice. Lá ele se animou um pouco ao se descobrir um exímio assustador de pombos e esquecer o dedo. A partir dessa praça uma ruazinha estreita sobe até os Jardins de Luxemburgo.  É a Rue Ferou, em que um poema declamado por Rimbaud aos 17 anos na Praça de St. Sulpice preenche um imenso muro. O barco bêbado do poema danou-se a chacoalhar sobre as nuvens lá do céu, e a respingar sobre nós, já abatidos pelos últimos acontecimentos. Resignados, voltamos mais uma vez para o apartamento. Entre um gole de cerveja e outro, no fim da noite, era inevitável pensar se não tínhamos forçado Daniel além da conta ao trazê-lo em uma viagem como essas. Seja como fosse, estávamos preparados para tentar mais uma vez.

O caçador de pombos

Marcas de guerra

O Barco Bêbado de Rimbaud

quarta-feira, 18 de março de 2015

Elas



Procuro-as, mas não as encontro.
Fugidias, insistem em me escapar entre os dedos,
entre os lábios, entre os sonhos.

Circundo-as, mas não as capturo.
Sem sucesso, recolho-me sem voz.
A rouquidão é minha companheira agora.

Elas, já não me pertencem,
não me querem, não me procuram.
Viajam longe por outras paragens, nas ideias de outrem.

Vejo-as de longe, felizes e insinuantes.
Agudas e incisivas como só elas sabem ser,
obedientes que são a seus mestres fugazes.

Um dia, quem sabe, nos encontraremos de novo.
Dessa vez para valer, sem subterfúgios ou imbróglios incessantes,
mas com vivacidade e determinação, para uma obra construir.

E com uma das menores e mais inevitável dentre elas, me despeço então: fim.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Xangai, China - Relato de Viagem (Parte 3)



Em julho de 2014 fui à Xangai, na China, junto com meu amigo e chefe Edimarques para participar de uma conferência internacional sobre pontes. Foi a primeira vez em que viajei ao Oriente. Não comi gafanhotos e a comida chinesa que temos no Brasil não tem nada de chinesa. Ela é brasileira mesmo.


A conferência em si foi muito interessante, com trabalhos apresentados por engenheiros de vários países. Poucos tinham o inglês como língua mãe, o que tornou um esporte adivinhar de onde cada um era baseado no sotaque. Os chineses, sempre maquinais, martelavam as palavras no ar. Um deles me deixou na dúvida durante os primeiros cinco minutos de apresentação se falava inglês mesmo ou chinês. É difícil perceber o próprio sotaque, mas após um colega brasileiro desfilar seu inglês tupiniquim passei a notar claramente meus próprios entraves. Apresentei o nosso trabalho no terceiro dia, já mais relaxado após entender que se dava muito mais importância ao conteúdo do que à fluência no inglês (o meu é o inglês das ruas, totalmente informal e pleno de subterfúgios para driblar o parco vocabulário).


A gastronomia continuou a decepcionar durante a conferência, mesmo se tratando de um hotel cinco estrelas. No último andar funcionava um restaurante giratório, onde era servido o almoço. Macarrão e arroz jamais se encontravam com sal ou tempero. Pelancas faziam as vezes de carnes. O jeito era mastigar bem e empurrar goela adentro com coca-cola para forrar o estômago. Um dos eventos sociais da conferência era um jantar de gala, em que os únicos incautos engravatados éramos nós brasileiros. Um vinho chinês cumpria o papel social de entorpecer e tiras de porco salvavam a noite, enquanto os garçons depositavam garrafões de plástico de refrigerante nas mesas. Acabei por apreciar a informalidade chinesa. Completamos uma mesa ocupada por americanos, brasileiros, sul-coreanos e estudantes chineses, que nos deram dicas de manuseio dos pratos. Houve ainda uma ótima apresentação musical, com um virtuose de um desconhecido instrumento musical que lembrava um berimbau elétrico.


Outro evento social foi um passeio noturno de barco pelo rio Pudong. O espetáculo fica por conta das luzes dos modernos arranha-céus, ainda que envoltos por uma névoa constante que nem a chuva dissipava. Cerveja à temperatura ambiente e um bolo açucarado embalavam os navegantes. Quando percebi estava tentando conversar em inglês com nossos amigos portugueses.

Noite de Xangai

Rio Pudong em Xangai

No último dia de conferência fizemos uma visita técnica às instalações da Universidade Tongji. Eles exibiram orgulhosos seus modelos de prédios e pontes, testados em modernos túneis de vento e mesas vibratórias que simulam terremotos. Um dos laboratórios ficava a aproximadamente uma hora do centro de Xangai e o percurso era todo feito sobre uma estrada elevada, acima dos engarrafamentos e da balbúrdia da cidade, ladeada por gigantescos canteiros de obras e fantasmagóricos conjuntos habitacionais (cidades dormitório). Deu para ter uma ideia da imensidão que é Xangai. Esse campus afastado era ultramoderno, com enormes galpões. Ficou claro que os chineses não estão brincando de se modernizar. Eles investem pesado em educação e pesquisa e contam com um exército de estudantes dedicados.


A China tem ainda a fama de ser um paraíso de eletrônicos falsificados. Fama essa justificada. Em um fim de tarde fomos à região comercial Xujiahui, que vende de tudo. É impossível dizer o que é original e o que não é. Lojas com reluzentes letreiros da Samsung vendem os dois tipos, sem a menor cerimônia. À medida que subíamos os andares de incontáveis lojas o pudor dos vendedores diminuía. No último andar vi dezenas de chineses empacotando e desempacotando eletrônicos, mudando gabinetes de CPU’s, substituindo hardwares, numa orgia de microchips. Saí de lá sem comprar o HD externo que procurava por não sentir firmeza de que teria o produto correto.

Xujiahui, em Xangai

 No nosso último dia em Xangai fomos conhecer a área do Yu Garden. O jardim já estava fechado quando chegamos, mas há ruelas com quinquilharias para todos os gostos - inclusive o bom gosto - que valem a pena visitar. No entanto, fique atento às negociações. Há um jogo a ser jogado em cada parada. Não se acanhe em ofertar valores de até um décimo do que foi inicialmente pedido (claro que cada caso é um caso). A partir daí começa a dança da calculadora, que serve de intérprete no jogo da barganha (basta digitar os números e apontar). Se você disser que não quer mais o produto e que vai embora o preço cai mais um bocado e o vendedor chega até a te segurar pelo braço. Só oferte valores se estiver realmente disposto a levar o produto. Após uma desistência mal calculada fomos (bem provavelmente) xingados em chinês. A arquitetura de China antiga dá uma atmosfera bacana ao local e um belo contraste com os prédios modernos ao fundo. Uma ponte em zigue-zague leva a uma antiga casa de chás. Dizem que os maus espíritos não conseguem fazer curvas e por isso não atravessam essa ponte.

Brasileirice no Yu Garden

Arquitetura chinesa antiga no Yu Garden

Ponte em zigue-zague

O dia seguinte era dia de volta ao Brasil. É sempre bom regressar ao nosso lar. Tão bom quanto viajar. O voo teve a saída atrasada em quatro horas devido a uma tempestade. Esperamos dentro do avião, o que aumentou o tempo sentado e a canseira. Quase perdemos a conexão em Paris, mas no final deu tudo certo. A experiência de conhecer a China e de participar de uma conferência internacional foi fantástica e ficará marcada na memória. Quem sabe um dia eu consigo convencer Marie a voltar lá comigo para conhecermos um pouco mais desse outro mundo dentro do nosso mundo?